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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Adeus, Ariano Suassuna!

CARTA DE MATHEUS NACHTERGAELE A ARIANO SUASSUNA
"Carta para Ariano,
Quem te escreve agora é o Cavalo do teu Grilo. Um dos cavalos do teu Grilo. Aquele que te sente todos os dias, nas ruas, nos bares, nas casas. Toda vez que alguém, homem, mulher, criança ou velho, me acena sorrindo e nos olhos contentes me salva da morte ao me ver Grilo.
Esse que te escreve já foi cavalgado por loucos caubóis: por Jó, cavaleiro sábio que insistia na pergunta primordial. Por Trepliev, infantil édipo de talento transbordante e melancólicas desculpas. Fui domado por cavaleiros de Sheakespeare, de Nelson, de Tchekov. Fui duas vezes cavalgado por Dias Gomes. Adentrei perigosas veredas guiado por Carrière, por Büchner e Yeats. Mas de todos eles, meu favorito foi teu Grilo.
O Grilo colocou em mim rédeas de sisal, sem forçar com ferros minha boca cansada. Sentou-se sem cela e estribo, à pelo e sem chicote, no lombo dolorido de mim e nele descansou. Não corria em cavalgada. Buscava sem fim uma paragem de bom pasto, uma várzea verde entre a secura dos nossos caminhos. Me fazia sorrir tanto que eu, cavalo, não notava a aridez da caminhada. Eu era feliz e magro e desdentado e inteligente. Eu deixava o cavaleiro guiar a marcha e mal percebia a beleza da dor dele. O tamanho da dor dele. O amor que já sentia por ele, e por você, Ariano.
Depois do Grilo de você, e que é você, virei cavalo mimado, que não aceita ser domado, que encontra saídas pelas cêrcas de arame farpado, e encontra sempre uma sombra, um riachinho, um capim bom. Você Ariano, e teu João Grilo, me levaram para onde há verde gramagem eterna. Fui com vocês para a morada dos corações de toda gente daqui desse país bonito e duro.
Depois do Grilo de você, que é você também, que sou eu, fui morar lá no rancho dos arquétipos, onde tem néctar de mel, água fresca e uma sombra brasileira, com rede de chita e tudo. De lá, vê-se a pedra do reino, uns cariris secos e coloridos, uns reis e uns santos. De lá, vejo você na cadeira de balanço de palhinha, contando, todo elegante, uma mesma linda estória pra nós. Um beijo, meu melhor cavaleiro.
Teu,
Matheus Nachtergaele"
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Fonte: Diario de Pernambuco
Imagem: João Grilo (Matheus Nachtergale), em "Auto da compadecida" - adaptação para a TV e cinema da obra de Ariano Suassuna
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Ariano Suassuna no site: 
http://www.elfikurten.com.br/2013/09/ariano-suassuna.html

sábado, 29 de março de 2014

Bem que diziam


      Outro dia falei que ainda restam periquitos. É verdade! Mas, desses, de hoje, devem restar muito  mais, pois,  sempre os vejo, e ouço, por aí. O que é uma alegria,  nesses tempos cada vez mais loucos e empedernidos. E havia um, em alguma árvore, do Campo Santo. Indiferente à dor de quem estava ali, velando algum ente querido, cantava!
       Creio que ninguém sabia o que ele tinha visto. Na verdade, não pareciam interessados. Cada um cuidava de sua vida, os passantes, os moradores. Não queriam saber da vida alheia. Mas ele trinava alegremente! Talvez quisesse chamar a amada ou algum companheiro. Ou, simplesmente, cantar a manhã. O fato é que ele cantava e bem dizia.
     O pequeno cantor mudava de pouso e, assim, durante todo o tempo que levei para atravessar o quarteirão conseguia ouvir.   Acontecimento tão inusitado, no entanto, passava despercebido. Não se sabe por quê. Talvez essa proximidade cotidiana  tenha transformado o insólito  em algo banal e por isso não chamava a atenção. Hoje em dia, nem as crianças os caçam mais. Antigamente, havia alçapões, visgos, gaiolas, estilingues... Artefatos completamente desconhecidos pelos meninos, na atualidade.  Andam tão atarefadas com as novas tecnologias que desconhecem esse “prazer” dos ancestrais. Ainda bem, que para alguma coisa serve esse progresso!
        Descendo a rua, o trinado misturou-se ao barulho proveniente dos automóveis. Ainda que tentasse não consegui mais distinguir. Permaneceu lá, ao longe... Mas o certo é que me tocou. Não posso dizer que me alegra. Fica sempre uma tristezazinha, uma saudade de algo que não tive, de alguma coisa que não vivi.
      O que conforta é a certeza de que o encontrarei novamente. Esse ou aquele, vou, sempre, buscar  seu canto. E maravilhar-me!...

                                                                                                                Lécia Conceição de Freitas


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Ainda restam coquinhos... e periquitos


           
            Devo dizer que hoje, apesar da grande movimentação, na Av. Presidente Vargas, perto da Ponte que já foi Grande, havia um bando de periquitos  deliciando-se com os coquinhos  aqueles amarelinhos, que grudam nos dentes da gente.  Os bichinhos faziam acrobacias para comer os coquinhos em um cacho enorme, pendente de um coqueiro  no canteiro central da dita avenida. E gritavam... e palravam...
             O que nos deixa felizes, pois não é comum que se veja um bando de periquitos nessa folia e, muito menos, degustando essa fruta, bem no centro urbano de uma cidade que já foi pacata. O alarido dos pássaros era bem forte e demonstrava a alegria por estarem ali, com tanto alimento à disposição.  Ás vezes, algum deles pegava um coquinho com o bico e saía voando por cima das cabeças de quem estava no ponto de ônibus.  O que leva a crer que devem ter seus ninhos ali naquela matinha aos pés do Cristo Redentor.
            Fiquei por um bom tempo observando. É sabido que gosto demais de pássaros e aquilo, ali, naquela hora, era um presente.  Olhei disfarçadamente em volta para ver se mais alguém estava admirando o acontecimento e assim poder fazer um comentário. Tudo que eu queria era poder falar sobre os periquitos e  a festa que faziam. Mas qual, ninguém prestava atenção! As pessoas andam muito apressadas.  E cada um se preocupava com o que lhe parecia ser mais importante, decerto. O que para todos parecia ser uma coisa banal, para mim era um acontecimento! Que alguns periquitos  viessem  tão perto do ser humano, colher frutas e festejar deveria  ser visto como algo inusitado. Ou talvez eles ainda sejam inocentes e não sabem o perigo que correm. Ou quem sabe, quisessem mesmo se mostrar, sabedores de sua graça.
            Acho mesmo que somente eu percebia a dádiva da natureza. E eu a recebi como um mimo  oferecido somente a mim. Eu,  que amo essas coisas de árvore, conversa de periquitos, cores e cheiros de coquinhos! De onde estava não podia sentir o cheiro, é verdade, mas eu adivinhava. Imaginava até a doçura das frutinhas, por isso entendia a alegria dos periquitos e era conivente com eles, apesar do lugar, da hora, do barulho...
            Mas  é bom que saibam, que nessa cidade de Pará de Minas, em meio a um trânsito caótico, barulhento, em uma avenida apinhada de pessoas, um bando de periquitos festejava  a tarde, a vida...
 E eu, eu vi isso!


Lécia Conceição de Freitas

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Preferências




CHEIRO DE SOLIDÃO
Déa Januzzi

             Um dia, ainda vou construir um asilo para velhos. Mas a primeira medida que vou tomar será achar um outro nome para asilo, que não  lembre morredouro, como proclamou Simone de Beauvoir, no livro Envelhecer, para definir um lugar onde os velhos são deixados para morrer.
            Não vou mudar só o nome, mas também a filosofia. Vou pintar as paredes do asilo com cores bem fortes, abusar dos amarelos, laranjas e vermelhos. Vou abolir os azulejos brancos, insípidos, frios como lápides. Vou colocar girassóis nas janelas. Vou plantar grama por toda a parte interna da casa, para que os velhos andem descalços e sintam a relva roçar os pés como cócegas.
           No asilo que vou construir, haverá quintal, jardins e árvores por todos os lados. As janelas estarão sempre abertas para o vento que vai entrar pelos cômodos, passear pelos cabelos dos idosos, levantar as saias e os chapéus, arejar os corações com o aroma das manhãs. Colocarei uma fonte luminosa em cada corredor.
            Nada de bingo e orações em excesso. Os idosos da minha comunidade vão pintar sóis ao despertar de cada dia, com os próprios pés, que serão mergulhados em baldes de tinta. Será como um escalda-pés de cores. Vou ungir os velhos com a minha fé num mundo novo. No meu asilo, que não terá esse nome, não permitirei capelas. Nada de missas demais, cânticos de qualquer igreja, com honrosa exceção para o canto gregoriano, pois os idosos precisam de asas para voar e não de sepulcros.
            Vou pintar o teto de azul e colocar estrelas fosforescentes para que eles durmam com os olhos nas constelações. Não haverá escuridão nem gemidos depois que as luzes se apagarem, mas o brilho das estrelas do teto, sob o ruído suave da fonte. Todos os idosos poderão ter um animal de estimação, um pássaro, uma tartaruga, um cão, um gato. O choro será livre, em nome dos filhos que os abandonaram sem deixar endereço. Haverá o dia de chorar pelos filhos que enterraram os pais vivos nos asilos. Nesse dia, todos os idosos poderão xingar, gritar, deixar toda a raiva sair para fora, como um mar revolto.
           Os almoços serão sempre festivos e a comida terá um sabor especial. Não dispensarei alho, cebola, manjericão, alecrim, sálvia, cheiro-verde, com gosto de viver, para que o paladar se torne cada vez mais apurado. O café da manhã será uma celebração. Amanhecer na velhice é mais que um privilégio, é festejar mais um dia de vida, mais uma dádiva, que será posta na mesa com o café com leite, pães feitos por Magui do Sítio do Sertãozinho, com ervas e boas intenções, além de iogurte, cereais, mel e frutas. O café da manhã vai durar uma eternidade. Será uma espécie de ritual, com músicas da nova era para despertar sentidos.
           Depois, haverá aulas de alongamento e todos irão para o jardim, tomar sol e brincar. Haverá até um quarto de brinquedos, pois os velhos se tornam crianças. É a idade  do desconhecimento, de falar e de fazer o que tiver vontade. No meu asilo, que não terá esse nome definitivamente, não será pecado envelhecer, ter rugas e cabelos brancos. Para isso, vou pedir ajuda aos contadores de história, aos Doutores da Alegria, aos Anjos da Guarda, aos terapeutas de Alexandria, aos psicólogos das oficinas de memória, aos mágicos, palhaços, para que se revezem no ofício de transmitir a vida.
           No meu asilo, que não terá esse nome, os velhos vão poder namorar, porque o sexo não é coisa de jovem. O desejo não envelhece nunca. Haverá praça de para o footing, com pipoca, algodão doce, e até um parque de diversões, com lago e patos. Haverá declamações de poemas longos, infindáveis.
           Os jovens farão de seus braços bengalas para os velhos, Juntos, eles caminharão pelas alamedas, serão companheiros nessa viagem pelo tempo de viver. O respeito será traduzido em abraços, rodas de conversas, música e até fogueiras nas noites frias de inverno. E, quem sabe, um copo de vinho tinto. Haverá óleos essenciais para massagens curativas.
           Cada morador dessa comunidade poderá levar  para os seus  aposentos as lembranças de antigas casas: porta retratos, quadros, cadeira de balanço, xícara, álbuns de fotos baús e tudo o que traduzir aconchego. Ninguém poderá destituir os mais velhos de seus pertences e recordações afetivas. Nessa comunidade, com certeza, eu levaria até a minha mãe, para morar no andar debaixo do meu sótão, bem junto de mim. Quando eu estiver lá em cima, escutarei o barulho da cadeira de balanço ranger ternura, exalar história e sabedoria por todas as frestas desse asilo, que não terá esse nome nem cheiro de solidão.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Preferências


Recomendo a todos que gostam, e precisam conviver com crianças, o livro "COMO AMAR UMA CRIANÇA", de Janusz Korczak . É um livro belo, sensível, perspicaz e pleno de amor. Korczak morreu em Treblinka, em 1942, junto com as 200 crianças do orfanato que ele dirigia em Varsóvia.
           ..."Você diz: "Meu filho."
          Quando , senão apenas durante a gravidez, você terá o direito de dizê-lo? A batida de um coração tão pequeno como o caroço de um pêssego faz eco no seu pulso. É a sua respiração que lhe fornece o oxigênio. Um sangue comum a você circula em ambos, e nenhuma destas gotas vermelhas sabe ainda se ela será sua ou dele, ou se, será derramada, será preciso que morra em sacrifício ao mistério da concepção e do nascimento. Este pedaço de pão que você está mastigando é material para a construção das pernas sobre as quais ele correrá , da pele que o recobrirá, dos olhos com os quais ele olhará o mundo, do cérebro onde o pensamento brilhará, das mãos que estenderá para você e do sorriso com o qual ele chamará "mamãe".
          Juntos vocês irão viver um momento decisivo; juntos sofrerão uma mesma dor. O despertador tocará: pronto.
          E vocês dirão ao mesmo tempo - ele: "Eu quero viver minha vida";e você "Viva a sua vida".
          Com poderosas contrações das suas entranhas você o expulsará sem se preocupar com o sofrimento dele, e ele abrirá o seu próprio caminho com força e decisão, também sem se preocupar com o sofrimento de sua mãe.
          Ato brutal.
          Na realidade, não. Você e ele executarão mil movimentos imperceptíveis, maravilhas de habilidade, de sutileza, a fim de que, tomando cada um a sua parte de vida, não tomem além do que é devido a cada um, segundo uma lei universal e eterna.
           - Meu filho.
           Não, nem nos meses de gravidez, nem nas horas de nascimento a criança não é sua..."