terça-feira, 12 de setembro de 2017

O AMOR QUE EU PERDI

o monte de minutos
e de horas me admitem 
que esse amor eu perdi
perdi porque não o tenho
não o encontro onde deixei
não está na minha sala
nem aquece minha vida
está liso meu lençol
e triste confirmo
esse amor eu perdi
cheiro o mundo
deslacro gavetas
busco o rastro
firo a ânsia
latejo a alma
mas esse amor... eu perdi
firmo um riso
ensaio a dança
beijo outra boca
vivo a vida
e amo outro alguem
mas aquele amor eu perdi.

Lécia Freitas

domingo, 10 de setembro de 2017

MINHA VIDA DE MENINA

No fundo do quintal de casa passava um córrego com águas frias e cantantes. Não oferecia perigo, mas ainda assim eu não me aventurava a entrar nele, porque como se afunilava a correnteza também era mais forte. Antes de passar no quintal de minha vó, o córrego se espraiava no lote que era do meu tio. Ali, sim, podia entrar. Rasinho, a  água  só cobria os pés. Friinha, cristalina, uma delícia. E ainda tinha as piabinhas que ficavam rodeando. Do outro lado do lote, tinha um pé de jambelão, que eu adorava. O outro terreno era de outro tio e ele deixava a gente plantar “a meia”. Na época da semeadura, eu ajudava meus irmãos a plantar o milho e o feijão na mesma cova. Eles iam na frente com a enxada fazendo a cova e eu atrás jogava  as sementes, e com o pé ajeitava a terra. Era um serviço que eu gostava. Também de capinar os matinhos, quando o milho já tinha crescido.
Seguindo  curso do córrego, no  fim, havia muitas plantas nas margens cujas folhas lambiam as águas. Suas flores eram brancas e cheirosas, acho que eram um tipo de lírio. A queda da água gerava energia mas, tão pouca que as lâmpadas nos postes, mais pareciam um tomate maduro, e só à noite. Com isso, a iluminação era feita por meio de lamparinas a querosene. Tinham um cheiro característico. A casa de minha avó era de pau-a–pique e, nas janelas de madeiras chanfradas, bem rústicas, haviam frestas por onde entrava  o vento e os fantasmas da noite lá de fora. A chama da lamparina bamboleava ao sabor do vento fazendo as sombras dançarem o que aumentava o medo. Eu queria sempre dormir no canto da cama de minha vó, mas minha irmã mais velha não deixava.
A minha irmã era mais chegada no meu irmão e como eu ainda era bem pequena não podia acompanhá-los nas brincadeiras e aventuras. Isso me matava. Em época de chuva – naquele tempo, as estações seguiam à risca o clima, e assim, na estação das águas chovia dia e noites a fio – quando o córrego enchia a transbordar, minha vó fazia um angu bem duro que eles colocavam no jequi para pegar peixes. Eu não podia ir junto mas ficava feliz quando retornavam com um monte de piabas e bagres. Isso diversificava nossa alimentação. Muitos tipos de legumes e frutas só vim a conhecer depois de adulta. Algumas frutas que eu conheci nas minhas andanças pelo mato nunca mais vi. 
Meu pai trabalhava roçando pastos e eu levava merenda para ele na volta do dia. Andava léguas, sozinha, e nunca tive medo. Talvez de alguma vaca parida, mas nem de cobra tinha medo. Não havia perigo.  Eu conseguia encontrar o meu pai naquela imensidão observando a direção em que o mato estava mais, ou menos, murcho. Eu adorava levar o café para o meu pai. Nesse momento, eu acreditava que ele estava gostando de mim.
Nenhum de nós possuía calçados, e como era muito frio os pés ressecavam e rachavam.  Ficavam com uma aparência feia, parecendo sujos, e os mais velhos diziam que era “piririca”. Assim, nos obrigavam a lavar os pés com sabugo de milho e “cacos” de telha. Isso os feria até sangrar piorando a situação. Para nós, isso era natural, não percebíamos como maldade.
Lembro com saudade de algumas coisa daquela época: a escola, por exemplo. Amava a escola! Assim como amava, também, as professoras, os meus cadernos, tudo. Os cadernos eram doados pelo governo. Eram poucas folhas, encardidas, mesmo assim eu os amava. Não tinha livros, mas eu lia todos da bilbioteca da escola. Até que proibiram porque disseram que eu pecisava brincar no horário do recreio, e não podia ficar só lendo. Eu só faltava de escola, para colher café, que era uma coisa que eu gostava demais. Sempre inventava uma dor para minha vó deixar eu faltar. Minha vó era muito brava, mas eu gostava dela. Ela me mimava muito e meus irmãos morriam de raiva por causa disso. Mas de vez em quando, dava umas coças de vara, de “pelar”. E colocava de castigo, sem poder ir brincar na rua.
Sempre gostei de ficar sozinha, de andar sozinha, observando as coisas miúdas do caminho: os matos, os bichinhos, as pedras...Sempre “viajei” nessas coisas. Ficava tempo olhando as formigas, os outros insetos... por causa disso achavam que eu estava doente, com lombrigas. E me davam uns remédios horrorosos.

Eu me refugiava sempre no meio do mato. Às vezes, andava a cavalo, em pelo mesmo, por horas. Às vezes, subia em árvores, enormes, frondosas, e assim me escondia. Deixava que me procurassem. Queria hoje, também, subir em árvores e me esconder.
Lécia Freitas

sábado, 9 de setembro de 2017

Nada é eterno. Devemos saber disso. No entanto, o paradoxo nos diz que o que fica na memória é para sempre. É preciso acreditar para sermos sanos.

Lécia Freitas


Percebo em meus ossos que o inverno esta chegando. Mas podemosdizer que o tempo está meio doido. Ou as coisas todas. Porque vi uma Fogo-apagou carregando, no bico, um capim seco. Talvez ela tenha encontrado o amor bem antes. Não conseguiu esperar setembro. O amor tem pressa.

Lécia Freitas


O espírito aquieta-se, embora a alma dance em todas as cores, Os grilos entoam sua presença na canção da noite enquanto a lua sorri seu brilho de amante enamorada. E eu, eu estou feliz, pois que tenho um amor para mim.

Lécia Freitas


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Quando se retesa o arco em direção a um pretenso inimigo e uma águaviva pousa na ponta da flecha como um aviso de que o amor vem vindo, instaura-se a poesia. Mas ela não é assim tão explícita. É preciso percebê-la nas coisas pequenas e até nebulosas, escondidas: os sinais. É preciso captar-lhe a essência.

Lécia Freitas


Era uma forma de vida! E eu não fiz nada por ele. Apenas o amei com esse amor inútil dos humanos. Nunca irá se aquecer com o calorzinho do sol nas manhãs deliciosas de abril. Nunca irá se espreguiçar com a luz amarela do outono. Tampouco vai olhar pela vidraça, o frio deste inverno que se aviznha. Não se encantará com as borboletas pousadas nas Marias-sem-vergonha do meu quintal, seguindo-lhes o voo com o olhar enigmático tão próprio. Sequer nos surpreenderá com o andar elegante e silencioso dos felinos. Não nos cativrá com seu pelo lustroso e macio. Ou talvez tenha tudo isso (muito mais que eu, que não mereço, porque não sou pura nem doce), no céu dos gatinhos.

Lécia Freitas