quarta-feira, 30 de julho de 2014

Terra de Nosso Senhor! E de Liberdade...

"BRASIL, MEU BRASIL BRASILEIRO, MEU MULATO INZONEIRO..."

            Gosto de afirmar que sou patriota! Sou mesmo, amo minha terra e tudo que é, genuinamente, daqui. Isso não quer dizer que não gosto das coisas de fora, da cultura de outros países. Gosto e respeito tudo! Ás vezes acho estranho, mas respeito.
            E sou católica, muito católica! Embora reconheça os erros cometidos pela Igreja, isso não tem nada a ver com minha fé. Também respeito todas as outras religiões e seus seguidores.
             Eu acredito que ser uma pessoa de bem, de caráter, independe da religião que se professa. Ou mesmo quando se é ateu. Como era o caso de Ariano Suassuna, tão aclamado, e, declaradamente, ateu, e mesmo assim falou  tão bem de Jesus Cristo e de Nossa Senhora, em O Auto da Compadecida.
            O Brasil tem um pé na Europa e um na África, e os dois na própria terra. Isso explica a diversidade! Mas, para mim, justamente essa mistura propiciou o jeito de ser de nossa gente. Por aqui temos gente da pior espécie. Sabemos disso. Mas, temos também muita gente boa. Brasileiro tem mania de falar mal de si próprio. Fala mal de tudo por aqui.
            Eu concordo que realmente, tem muita coisa ruim, muita coisa precisando de mudanças. Mas tudo que temos, fomos nós mesmos que criamos e permitimos.
            Eu costumo ouvir as pessoas dizendo que vão para o exterior onde há mais oportunidades. Pode ser! Porém essa situação também somos nós que criamos. Todas as verdades ou mentiras a respeito do Brasil, somos nós que aceitamos. E eu vejo muita gente que se realizou na vida sem roubar. Temos exemplos aqui mesmo, em Pará de Minas. Gente que trabalhou, em vez de ficar lamuriando e  se “deu bem na vida”.
O  que vejo é um Brasil como uma terra que acolhe qualquer um, de qualquer lugar do mundo. Aqui, nesta terra, as pessoas que vêm de outros lugares criam seu próprio país, ou um pedaço dele. Com sua cultura, seus costumes, suas danças, suas vestimentas típicas, suas comidas. E sua religião! Qual país tem esse acolhimento, essa liberdade como no Brasil?! Vai, qualquer um, ter esse comportamento, noutro lugar, lá fora, como aqui! Olha o que está acontecendo, no mundo por causa de religião!     Cada um achando que seu osso é maior e mais bonito! (Com todo respeito aos cães, que eu amo muito!)  Quantos morrem! E porque acham que a sua religião é a verdadeira, é a melhor! Já aqui, nesse país tupiniquim, desprezado até por seus filhos, e por aqueles que vieram para cá por diversos motivos e que se acham no direito de achincalhar, com o nosso jeito de ser, com a religião que bem ou mal,  foi a que os colonizadores, os escravos e os indígenas, nossos ancestrais,  nos deixaram, esses filhos de outras terras seguem a própria religião sem problema algum. Livres! Eu acho que isso é cuspir no prato que comem. Eu penso que quem está achando ruim, não está satisfeito, pode ir embora. O mundo é grande!

                                                                   Lécia Conceição de Freitas



terça-feira, 29 de julho de 2014

"A POÉTICA ROSEANA" Capítulo 5.5.5

5.5.5 O contador de histórias... um mundo sem fim! 

         (O Foco Narrativo)


            No foco narrativo, o autor dá voz a um narrador para contar a história, muitas vezes para transmitir a sua visão do mundo. O narrador pode ser em primeira pessoa, o eu que conta a história e é protagonista ou ainda personagem secundário.
             O foco narrativo, em Grande Sertão: Veredas, está em primeira pessoa. Riobaldo, narrador-personagem, já um rico fazendeiro, conta a sua vida a um senhor instruído, citadino, que não se manifesta, perceptível apenas pelas marcas que o narrador deixa em sua fala, como pode ser comprovado em: “O senhor aprova?” [...]
“Mas, não diga que o senhor assisado e instruído, que  acredita na pessoa dele?!.”  Não? Lhe agradeço!  (ROSA, 2006, p 10).  Na obra, o jagunço conta a sua história e fala do seu amor “de ouro e prata – Diadorima – “que nasceu pra muito guerrear.”
            Todo o discurso narrativo de Riobaldo está entremeado com o amor que sentiu por Diadorim. Ao narrar, ele fala dos fatos e das emoções que sentiu por causa desse amor:
assim eu ouvi, era tão singular. Muito fiquei repetindo em  minha mente as palavras, modo de me acostumar com aquilo.E ele me deu a mão.Daquela mão, eu recebia certezas. Dos olhos. Os olhos que ele punha em mim, tão externos, quase  tristes de grandeza. Deu alma em cara. Adivinhei o que nós dois queríamos – logo eu disse: – “Diadorim...Diadorim!” – Com uma força de afeição. Ele sério sorriu. E eu gostava dele, gostava, gostava. (ROSA, 2006, p. 156).

            É possível perceber, nesse trecho, a profundidade do amor dos dois protagonistas e a intensa carga emotiva do narrador. Embora o sentimento fosse intenso, ele não foi percebido por nenhuma das outras personagens do livro, pois os amantes não o deixavam transparecer, era indizível até mesmo nos diálogos travado entre os dois.



quarta-feira, 23 de julho de 2014

Adeus, Ariano Suassuna!

CARTA DE MATHEUS NACHTERGAELE A ARIANO SUASSUNA
"Carta para Ariano,
Quem te escreve agora é o Cavalo do teu Grilo. Um dos cavalos do teu Grilo. Aquele que te sente todos os dias, nas ruas, nos bares, nas casas. Toda vez que alguém, homem, mulher, criança ou velho, me acena sorrindo e nos olhos contentes me salva da morte ao me ver Grilo.
Esse que te escreve já foi cavalgado por loucos caubóis: por Jó, cavaleiro sábio que insistia na pergunta primordial. Por Trepliev, infantil édipo de talento transbordante e melancólicas desculpas. Fui domado por cavaleiros de Sheakespeare, de Nelson, de Tchekov. Fui duas vezes cavalgado por Dias Gomes. Adentrei perigosas veredas guiado por Carrière, por Büchner e Yeats. Mas de todos eles, meu favorito foi teu Grilo.
O Grilo colocou em mim rédeas de sisal, sem forçar com ferros minha boca cansada. Sentou-se sem cela e estribo, à pelo e sem chicote, no lombo dolorido de mim e nele descansou. Não corria em cavalgada. Buscava sem fim uma paragem de bom pasto, uma várzea verde entre a secura dos nossos caminhos. Me fazia sorrir tanto que eu, cavalo, não notava a aridez da caminhada. Eu era feliz e magro e desdentado e inteligente. Eu deixava o cavaleiro guiar a marcha e mal percebia a beleza da dor dele. O tamanho da dor dele. O amor que já sentia por ele, e por você, Ariano.
Depois do Grilo de você, e que é você, virei cavalo mimado, que não aceita ser domado, que encontra saídas pelas cêrcas de arame farpado, e encontra sempre uma sombra, um riachinho, um capim bom. Você Ariano, e teu João Grilo, me levaram para onde há verde gramagem eterna. Fui com vocês para a morada dos corações de toda gente daqui desse país bonito e duro.
Depois do Grilo de você, que é você também, que sou eu, fui morar lá no rancho dos arquétipos, onde tem néctar de mel, água fresca e uma sombra brasileira, com rede de chita e tudo. De lá, vê-se a pedra do reino, uns cariris secos e coloridos, uns reis e uns santos. De lá, vejo você na cadeira de balanço de palhinha, contando, todo elegante, uma mesma linda estória pra nós. Um beijo, meu melhor cavaleiro.
Teu,
Matheus Nachtergaele"
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Fonte: Diario de Pernambuco
Imagem: João Grilo (Matheus Nachtergale), em "Auto da compadecida" - adaptação para a TV e cinema da obra de Ariano Suassuna
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Ariano Suassuna no site: 
http://www.elfikurten.com.br/2013/09/ariano-suassuna.html

terça-feira, 22 de julho de 2014

Rubem Alves - O aprendiz de feiticeiro


Senti que o tempo é apenas um fio. Nesse fio vão sendo enfiadas todas as experiências de beleza e de amor por que passamos. Aquilo que a memória amou fica eterno. Um pôr do sol, uma carta que recebemos de um amigo, os campos de capim-gordura brilhando ao sol nascente, o cheiro do jasmim, um único olhar de uma pessoa amada, a sopa borbulhante sobre o fogão de lenha, as árvores do outono, o banho da cachoeira, mãos que seguram, o abraço do filho: houve muitos momentos de tanta beleza em minha vida que eu disse: ‘Valeu a pena eu haver vivido toda a minha vida só para poder ter vivido esse momento. Há momentos efêmeros que justificam toda uma vida’.

 Rubem Alves, em “Do universo à jabuticaba”. São Paulo: Planeta do Brasil, 2010, p. 144.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

A poetisa mineira - Adélia Prado

ENSINAMENTO

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, 
ela falou comigo: 
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”. 
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente, 
Não me falou em amor. 
Essa palavra de luxo.

Adélia Prado, no livro "Adélia Prado - Poesia Reunida", São Paulo: Editora Siciliano, 1991.


domingo, 20 de julho de 2014

O Afinador de Silêncios - Mia Couto

PARA TI


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

 Mia Couto, no livro "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

"A POÉTICA ROSEANA" Capítulo 5.5.4

         (O Discurso)


O senhor... Mire, veja:
João Guimarães Rosa

            O discurso, em si, é uma construção linguística atrelada ao contexto social no qual o texto é desenvolvido. Ou seja, as ideologias presentes em um discurso são diretamente determinadas pelo contexto político-social em que vive o seu autor. O termo discurso pode ser definido, do ponto de vista linguístico, como um encadeamento de palavras, ou uma sequência de frases, segundo determinadas regras gramaticais e numa determinada ordem, de modo a indicar a outro  que lhe pretendemos comunicar/significar alguma coisa. Os discursos desempenham diversas funções, assumem várias modalidades e utilizam diferentes tipos  de linguagens e estilos. Entre os tipos de discurso, cita-se o discurso direto, indireto e indireto livre.
            Na obra Grande Sertão: Veredas,  a narrativa tem início com um travessão o que caracteriza o discurso direto. Josiana Drumond em seus estudos declara  que:
a narrativa começa com um travessão, signo do discurso direto. No entanto, o travessão é seguido da palavra “nonada”¹ e de um ponto final. O discurso direto em GSV configura uma situação dialógica singular, visto que o interlocutor não participa do diálogo. A alteridade em forma de silêncio é uma presença importante, pois seu mutismo faz parte do discurso. Não há troca de falas, mas há o intervalo, o reconhecimento da alteridade, o adiamento reflexivo da fala reiterada. (DRUMOND, 2005, p. 126).

            No decorrer da história, porém, comprova-se o discurso indireto no verbo discendi no pretérito perfeito e a voz do narrador-personagem  indiretamente  nos diálogos das personagens:
–“Tal a tal, o Chefe tira mais finíssimas artimanhas do que o Zé Bebelo próprio”... – um disse.
– “À fé, que determina com a mesma justiça que Medeiro Vaz”... – outro falou mais aduloso. (p.480).
–  “Arara for?’” – ele me disse (p.105).
– “Que é que a gente sente quando tem medo?” – ele indagou, mas não estava remoqueando; (p. 106).

            É Riobaldo, narrador-personagem,  que  conta a história, intermedeia e relata os fatos. Além disso, esse tipo de discurso determina a visão do foco narrativo.

 





¹ Segundo alguns estudiosos a palavra Nonada significa “coisa sem importância.” (Para alguns   habitantes do sertão mineiro, sem qualquer comprovação científica, a palavra “nonada”, significa também, negação peremptória  de algo.)