sábado, 26 de novembro de 2016


Se, segundo Nietzsche e Freud, eu não sou senhor em minha própria casa, está explicado porque minha razão, embora saiba da necessidade do esquecimento, debate-se ante a loucura irracional que traz sua imagética surreal à minha vontade. Sempre!


Lécia Freitas




Como eu gostaria que desde sempre você percebesse o meu silêncio e o quanto de verbo ele atravessa. De quanto a minha alma transparece na signficação.

Lécia Freitas




Não se envolva com coisas ruins, afaste-se delas. Quando for a hora com garotas, trate-as como princesas. Seja gentil com todas as pessoas. E se disser que vai fazer algo, faça. Sua palavra é o seu compromisso. Mas se não puder fazer, não diga que o fará. E nunca, nunca finja sentimentos.

Lécia Freitas


não fosse o ar de primavera
tépida e tons violáceos
tarde triste tarde
não fosse esse ar
de promessas
que traz seu cheiro no vento
seja o amor
que me vem
essa semana
nessa primavera
a vida toda

Lécia Freitas



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

COMO A FLOR DO MARACUJÁ


           
            Damastor vem pela estrada sozinho com seus pensamentos. Pensa na mulher. Aflito para chegar. Sabe que ela o espera. O amor dos dois é uma coisa de doido. Tanto que ele nem quer ter filhos por agora. Quer a mulher só para si. Gosta de carregá-la no colo em noites quentes  para tomarem banho no poço. Ele lembra com desejo da mulher, nua, à luz da lua, com os dentes brilhando na escuridão. Quase ouve sua risada, enquanto lembra.
            Ele a conheceu na festa da quermesse no povoado e foi a sua risada que mais lhe chamou a atenção. Não, não foi a risada, foi o olhar dela, ele decide. Nas brincadeiras da quermesse ele manda um recado pelo Correio Elegante. Ela pergunta: - quem é? e quando se vira e o olha de frente ele vê o sol nos olhos dela. Um sol que a ilumina toda e que vai aquecê-lo pela vida afora. Ele respondeu se derretendo por dentro. Sente uma força que o arrasta como a de um caveirão lá da mata. -Eu sou Damastor! Ouve ela repetir seu nome docemente como nunca ouvira ninguém dizer. E vai ouvir sempre, agora, porque ela o faz pelo prazer de dizer o nome amado, de ouvir o próprio som do nome amado. Nunca mais se separaram. Estão irremediavelmente grudados para todo o sempre.
            Damastor sorri quando lembra da primeira vez. Sente o corpo crescer com as lembranças, mas se envereda cada vez mais. Tão bom lembrar!  Não sente o cansaço, a poeira do caminho, o sol quente que lhe queima. As lembranças vão chegando e ele separa as mais caras. Sente as mãos de Maria lhe pegando, passeando em seu corpo tão doces quanto impacientes. Sente a pele, morna, macia, com cheiro de araçá em flor. Ela toda é um cheiro. De todas as coisas. As coisas do mundo. E a boca tão fresca como manjericão... Damastor se perde novamente nos cheiros de Maria. E se entrega às lembranças como se entregou aquele dia e como acontece todas as vezes. Desde então não são mais dois, e sim apenas um. O amor deles está misturado em ambos, e às coisas da terra, do mato. Eles se sentem parte de tudo mesmo sem entenderem direito. E a felicidade é tão palpável, tão concreta e eles  nem se dão conta. Só eles e o mundo.
             Pensa nas muitas vezes em que ela o esperara na rede. Quando chega muito tarde ele a encontra dormindo. Sente o perfume da casa, tão cuidadosa, ela.
A comida deve estar lá, em cima do fogão, mas ele nem pensa nisso. Vai direto na rede e se encanta ao ver aquele rosto sereno num meio sorriso, talvez que esteja sonhando com ele. Ele se rende à morenice daquelas coxas e leva a mão o mais suave que pode. Tenta não acordá-la, mas ela sente a respiração ofegante dele. E o corpo todo se abre como a flor do maracujá em dias de chuva.
            Damastor sente-se bem com esses pensamentos. E agora do alto ele divisa sua casinha lá em baixo. Os grilos prenunciam o fim da tarde. Ele quase corre, doido para chegar. De longe ouve o som dela. Está na bica cantarolando. Ali, naquele chão não há muito barulho, só os da terra. E ele quer ouvir. Apura! Entremeado com os sons todos ele distingue a voz dela chorosa em canção de amor. Sente que ela o chama. É o chamado mais ardente que alguém pode ter. O chamado do seu amor! Ele se aproxima e a vê ali, entre suas coisas, a sua mulher dona de seu amor e de sua vida. Com o vestido de flores arregaçado mostrando as coxas que ele vai acarinhar. Com aquele corpo todo, quente, que ele sabe que lhe espera. Ele a chama  com os olhos, com a boca primeiro e depois com o corpo todo. Ela se vira como da primeira vez, já sabendo, agora, que é o seu homem que chega e se entrega àqueles braços, àquele abrigo. Até o oco do seu ser.


Lécia Freitas


terça-feira, 22 de novembro de 2016

O meu bem querer é ali onde o mato vira flor! O meu desejo é na dobra do lençol que guarda cheiro e suor. A minha risada ri junto da alegria do meu amor. O meu abrigo está no mesmo espaço de dentro dele! E ser feliz é ver a imagem que ele viu, e trouxe. Seja de onde for!

Lécia Freitas

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A PODER DA SAUDADE



           O Nhambu passa piando, tristemente. Maria ouve e por um momento para o que está fazendo. Apura o ouvido e associa o som ao tempo: a tarde finda e os bichos voltam ao ninho. Ela se dirige para a porta, olha o mundo, percebendo tudo, o próprio desalento e a incompletude. A tristeza vem em borbotões e ela se queda, sentada no degrauzinho, como tantas vezes fizera. Permanece ali, porém não espera mais. Sente-se coisa entre coisas, murchando, secando. Tudo ao seu redor, parece sentir também a falta do dono. O capim ainda viceja, mas já se percebe a secadura. O que Maria faz, apenas para sobreviver. Damastor era a razão, de tudo. Os braços dele, sua casa, seu abrigo.
            Neste fim de outono, a luz amarela crucifica o tempo. O frio que se anuncia não lhe dá alívio. O corpo sente o estado de coisas, sente a hora como a da chegada e se manifesta em saudade, enorme! Seu corpo queima, lateja como em febre. E finalmente vencido já não exige. Antes, clama, suplica! Prende entre as pernas o pano do vestido que está usando. Entre a pele e o algodão, o amor. Onde andará Damastor? Por que não vem buscá-la? Por que não vem tamborilar em sua vontade fazendo dela uma semeadura de um canteiro de flores? Ela espicha o olhar querendo ver além da curva. Busca ver além. Além até do entendimento.
            O vento no bambuzal lhe traz o shshshsh das folhas numa dança orquestrada. Vai ter chuva de madrugada. As dádivas da natureza, ela as recebe, mas não se encanta mais. Não tem mais pra quem dançar debaixo dos primeiros pingos. No céu que escurece, Maria divisa algumas estrelas. Sabe que são suas. Damastor lhe deu de presente numa noite, em que o céu espiava o amor que acontecia, grosso, quente, lá na beira d’água. Ele dizia que tudo na natureza falava do seu amor e que por isso era dela.
            Entre eles era assim! Tinha suavidade, tinha ternura, mas na maior par das vezes, a vontade, a fome pelo outro vinha como uma enchente avassaladora derrubando tudo, tomando conta de tudo. Maria recebia o corpo de Damastor como um bem, um agrado da vida, disposta a permitir a posse, a dominação. Mas, na verdade, quem dominava era ela. Porque, no seu colo, Damastor voltava a ser menino. Frágil, dentro da enormidade daquele sentimento. E no seu amor, imenso, ela se agigantava. Fazia-lhe todas as vontades. E enquanto lhe lambia o corpo, reavivava as almas. Dos dois! O que fazia, era para o prazer dos dois. As mãos de seu homem, fortes calosas, de repente, vestia luvas de seda, finissimas, só para fazer desenhos de amor em sua pele. À luz da lua, do sol ou na escuridão, o que fosse.
            A poder da saudade, Maria ainda encomprida o olhar através das coisas, do mundo, tentanto buscar o seu amado.Tentando com sua vontade dar vida e forma ao que lhe vai por dentro, ao seu grito de desejo. Onde andará Damastor? Por que não ouve seu chamado? 
            Faz tempo Maria não chora mais com os olhos. Faz tempo não enxerga mais as coisas. O cinza que cobriu tudo em si, aos poucos toma conta do mundo. Desde então ela não vive, existe. Ela não se toca mais, não se sente mais. A vida que antes era uma festa, pelos olhos de Damastor, aos poucos tornou-se um fardo. Agora nem isso. Apenas essa falta, nebulosa, que se esgueira em todos os cantos, tomando conta dos espaços, sufocando-a, tirando-lhe tudo. Até a própria solidão.
Lécia Freitas