Hoje, Dia dos Pais, acho que vou me apropriar de todas as homenagens que estou vendo por aí. Esperei, sinceramente, ganhar pelo menos um abraço de parabéns. De qualquer pessoa. Mais ainda de meus filhos: Alberto, Luhara, João Vítor. Durante muito tempo da minha vida fui mais pai do que mãe. Era eu quem tomava as decisões, era eu quem tinha que prover o sustento, a segurança, tudo. Tanta coisa que nem me lembro, e o pior, não passou. Continuo sendo pai, embora não reconheçam, talvez porque eu não tenho a energia carinhosa que um pai deve ter. Esse meu papel ambíguo nunca foi reconhecido, muito menos valorizado. E eu não fui capaz de ser os dois: pai e mãe. Os meus filhos não me perdoam a abdicação, forçada, do meu papel de mãe. Eu tive que abdicar! Não havia tempo para ternura, delicadeza, etc.... O tempo era utilizado em como sobreviver. Para eles, no entanto, parece que não foi suficiente. E eu, eu estou sozinha. Essa solidão de agora é a pior que existe, A solidão do desamor, da indiferença. Mas como eu poderia usar a linguagem das Mães? Eu não tive mãe por isso a desconheço. Nunca a usei, sempre fui estrangeira a ela, a linguagem da ternura e da afeição. E pago caro por isso. Pensei que para demonstrar o meu amor seria bastante deixar de viver a minha vida. Não há aqui nenhum tipo de cobrança ou sacrifício. Foi uma opção minha. Isso é apenas uma tomada de posição. E não tem o que fazer, não há como voltar atrás e refazer. Não há como ter outros filhos, construir outra vida. Não há mais tempo, não para mim. Contudo, não os culpo. Como poderiam compreender um amor assim, no cotidiano, na crueza, no viés da vida? Seria preciso detalhar, entrever as atitudes, ler nas entrelinhas a história de um amor, que embora rude, é sem medidas, sem tamanho... Um amor que fica por aí no tempo, no espaço, porque ele existe e não tem como voltar para dentro de mim. Eu me tornei assim como uma tempestade que se forma e a chuva não cai. Como um rio que corre, mas não murmura. Como o vento que sopra, mas não canta. Como uma árvore que floresceu deu frutos, mas não dá mais nem sombra. Não tem seiva, não tem vida.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Preferências
CHEIRO DE SOLIDÃO
Déa
Januzzi
Um dia, ainda vou construir um asilo para
velhos. Mas a primeira medida que vou tomar será achar um outro nome para
asilo, que não lembre morredouro, como
proclamou Simone de Beauvoir, no livro Envelhecer, para definir um lugar onde
os velhos são deixados para morrer.
Não vou mudar só o nome, mas também a
filosofia. Vou pintar as paredes do asilo com cores bem fortes, abusar dos
amarelos, laranjas e vermelhos. Vou abolir os azulejos brancos, insípidos,
frios como lápides. Vou colocar girassóis nas janelas. Vou plantar grama por
toda a parte interna da casa, para que os velhos andem descalços e sintam a relva
roçar os pés como cócegas.
No asilo que vou construir, haverá quintal,
jardins e árvores por todos os lados. As janelas estarão sempre abertas para o
vento que vai entrar pelos cômodos, passear pelos cabelos dos idosos, levantar
as saias e os chapéus, arejar os corações com o aroma das manhãs. Colocarei uma
fonte luminosa em cada corredor.
Nada de bingo e orações em excesso.
Os idosos da minha comunidade vão pintar sóis ao despertar de cada dia, com os
próprios pés, que serão mergulhados em baldes de tinta. Será como um
escalda-pés de cores. Vou ungir os velhos com a minha fé num mundo novo. No meu
asilo, que não terá esse nome, não permitirei capelas. Nada de missas demais,
cânticos de qualquer igreja, com honrosa exceção para o canto gregoriano, pois
os idosos precisam de asas para voar e não de sepulcros.
Vou
pintar o teto de azul e colocar estrelas fosforescentes para que eles durmam
com os olhos nas constelações. Não haverá escuridão nem gemidos depois que as
luzes se apagarem, mas o brilho das estrelas do teto, sob o ruído suave da
fonte. Todos os idosos poderão ter um animal de estimação, um pássaro, uma
tartaruga, um cão, um gato. O choro será livre, em nome dos filhos que os
abandonaram sem deixar endereço. Haverá o dia de chorar pelos filhos que
enterraram os pais vivos nos asilos. Nesse dia, todos os idosos poderão xingar,
gritar, deixar toda a raiva sair para fora, como um mar revolto.
Os almoços serão sempre festivos e a comida
terá um sabor especial. Não dispensarei alho, cebola, manjericão, alecrim,
sálvia, cheiro-verde, com gosto de viver, para que o paladar se torne cada vez
mais apurado. O café da manhã será uma celebração. Amanhecer na velhice é mais
que um privilégio, é festejar mais um dia de vida, mais uma dádiva, que será
posta na mesa com o café com leite, pães feitos por Magui do Sítio do
Sertãozinho, com ervas e boas intenções, além de iogurte, cereais, mel e
frutas. O café da manhã vai durar uma eternidade. Será uma espécie de ritual,
com músicas da nova era para despertar sentidos.
Depois, haverá aulas de alongamento e todos
irão para o jardim, tomar sol e brincar. Haverá até um quarto de brinquedos,
pois os velhos se tornam crianças. É a idade
do desconhecimento, de falar e de fazer o que tiver vontade. No meu
asilo, que não terá esse nome definitivamente, não será pecado envelhecer, ter
rugas e cabelos brancos. Para isso, vou pedir ajuda aos contadores de história,
aos Doutores da Alegria, aos Anjos da Guarda, aos terapeutas de Alexandria, aos
psicólogos das oficinas de memória, aos mágicos, palhaços, para que se revezem
no ofício de transmitir a vida.
No meu asilo, que não terá esse
nome, os velhos vão poder namorar, porque o sexo não é coisa de jovem. O desejo
não envelhece nunca. Haverá praça de para o footing, com pipoca, algodão doce,
e até um parque de diversões, com lago e patos. Haverá declamações de poemas longos,
infindáveis.
Os jovens farão de seus braços bengalas
para os velhos, Juntos, eles caminharão pelas alamedas, serão companheiros
nessa viagem pelo tempo de viver. O respeito será traduzido em abraços, rodas
de conversas, música e até fogueiras nas noites frias de inverno. E, quem sabe,
um copo de vinho tinto. Haverá óleos essenciais para massagens curativas.
Cada morador dessa comunidade poderá
levar para os seus aposentos as lembranças de antigas casas:
porta retratos, quadros, cadeira de balanço, xícara, álbuns de fotos baús e
tudo o que traduzir aconchego. Ninguém poderá destituir os mais velhos de seus
pertences e recordações afetivas. Nessa comunidade, com certeza, eu levaria até
a minha mãe, para morar no andar debaixo do meu sótão, bem junto de mim. Quando
eu estiver lá em cima, escutarei o barulho da cadeira de balanço ranger
ternura, exalar história e sabedoria por todas as frestas desse asilo, que não
terá esse nome nem cheiro de solidão.

domingo, 5 de agosto de 2012
Memórias
Lembranças
de Onça de Pitangui
O sentido de Pátria é muito
abrangente. O Brasil, por ser quase um continente, com uma cultura vastíssima, é exemplo disso.
Cada um vai associar o sentido de Pátria àquilo que mais lhe chama a atenção,
que lhe é caro, que lhe emociona. Para mim, Pátria, entre outras coisas, é o
berço, a ancestralidade. Isso me leva,
naturalmente, à minha terra, Onça de Pitangui. Não essa de agora, mas àquela de
minhas lembranças. O ar, o cheiro, a essência são os mesmos, porém tudo está
tão diferente. É certo que muita coisa mudou para melhor, no entanto, quando a
vejo, busco rever o que está dentro de mim. Cada canto, cada detalhe, tão
vivos nas lembranças, e se procuro, para reavivar essas imagens, já não encontro.
Havia um lugar, perto da Igreja Matriz, chamado "Pacheco". Era um pedaço
da rua margeado de moitas de bambus, enormes, densos, onde a vista não
alcançava além, só se via bambu. No alto,
eles se encontravam impedindo a passagem
da luz do sol o que tornava sombrio o lugar . Além disso, numa das extremidades
havia um córrego. Passava ali nos fundos da casa do Senhor Godofredo e Dona
Cecília, parentes meus. No quintal do
Senhor Godofredo tinha um pé de laranja côca, as mais gostosas que já vi. Ele
sempre dava as laranjas, mas era um problema para apanhar porque ele não
deixava, de jeito nenhum, bater com a vara nos galhos. Essa variedade de
laranja tem muitos espinhos e não tinha como
subir no pé, então, era complicado. Depois, o córrego entrava nos
terrenos do Senhor Gumercindo, meu tio-avô, e pai do Geraldo, dono da
Churrascaria Santa Cruz. O barulho da água era lindo mas isso tornava o lugar
frio e úmido. Quando ventava, as folhas
faziam um barulho, sussurrante
que nunca mais ouvi em lugar algum. Para mim, esse era um lugar mágico. Eu não
me aventurava passar por ele, sozinha, qualquer que fosse a hora do dia. E
mesmo com alguém, eu andava olhando para trás morrendo de medo. Era comum, ao
longo do caminho, encontrarmos montes de folhas secas. A vontade de chutar era
irresistível. Quase sempre havia uma pedra escondida debaixo das folhas.
Brincadeiras de algum menino que passara
antes, certamente mais corajoso a ponto de parar para juntar as folhas. Do lado
da Igreja, ao terminar os bambus, começavam as flores. Eram flores simples, não
me lembro do nome. Nasciam sozinhas, em certa época do ano. Ah, eu gostava de
vê-las assim, tantas, tantas, de todas as cores!
Na última vez que eu fui lá havia
apenas uma moita de bambu. Mais nada. Mais nada. A Serra, defronte a Igreja,
ainda existe. Majestosa, porém frágil diante
do Homem que tudo aniquila. Ainda assim, enfrenta, com coragem, o progresso que vai chegando. A
amplidão que, embora tão criança, eu
percebia do adro da Igreja quando
olhava para a serra, ainda existe.
Essa amplidão, que resume Onça de Pitangui, eu posso abrir os braços e alcançá-la,
toda, inteira, tamanho é o meu sentimento, o meu amor.
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