quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

QUANDO SERÁ MANHÂ

E agora, quando será manhã novamente? Onde está meu bom dia? Você vem e vai em instantes tão velozes, e tão esparsos que nunca consigo lhe alcançar.
Por onde andará você?
O tempo não é amigo, ele é cruel. Ele não nos acrescenta: ele nos rouba o melhor de nossas vidas. Seja sendo rápido demais, tão rápido que muitas vezes impede a impressão de átimos felizes, transformando o que poderia ser real em fugacidades; 
seja pela originalidade em nunca se repetir, em nunca voltar. Quando você se prepara para ser feliz, o tempo já foi. O tempo não lhe dá tempo de ensaio. Ele não cristaliza nada. Não lhe devolve oportunidades perdidas. 
Portanto, avalie prioridades. Questione seu coração sobre as suas verdades. O voo é a verdade do falcão e ele tem todo o espaço para mostrar isso, porém o tiro é a verdade do caçador e pode ser bem mais rápido. 
Enquanto você brinca de senhor do tempo, pensando que o tem nas mãos, ele está passando e as possibilidades se apresentam em todo lugar. O Universo está se expandindo e a Terra girando. Se você fica parado esperando o melhor tempo a vida vai passar sem se dar conta. 
Viva cada minuto, realmente, sem lugar-comum. E busque pessoas para seu redor, porque no final é só isso que importa. Sem lugar-comum.


Lécia Freitas

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

FIO DO FERRO AMOLADO



            Para quem gosta das coisas da terra, o barulho da enxada carpindo é significativo. Remete às sementes que florescerão. Mas enquanto ouço esse som, aqui no quintal,  que me lembra tanta coisa penso nos matinhos que estão sendo arrancados. Na terra que está sendo remexida. Quanto sai de seu lugar para que outros acontecimentos sobrevenham? Como na vida da gente. Quanto de dor é necessário para que novos sentimentos surjam? E sejam  latentes até se tornarem os mais importantes. Quantos outros sentimentos vamos deixando de lado ao considerarmos este ou aquele mais importante. Nem sempre porque queremos. Às vezes uma emoção é tão forte dentro de nós que entendemos precisar  dela para sobrevivermos neste caos de insensibilidades. Porque essa emoção nos torna atuantes. Às vezes nos deparamos no ocaso, quando já não há mais tanto tempo, com um sentir que nos sacode, que nos impulsiona  porque traz um sopro num mundo já apagado, esquecido, e aí, esquecemos de todo o resto. Como deter esse sopro que era tudo que a gente esperava e que agora, para nós é tudo que resta?
            Mas é preciso enfrentar o fio da enxada. Se temos um sentimento queremos mostrá-lo ao mundo. Queremos expô-lo par a que todos saibam que somos capazes. Que somos bons o suficiente para sentir, e para conferir importância a um outro. E que somos corajosos o suficiente para lutar por ele. Que somos  fortes o bastante para cavar no outro a certeza do amor correspondido. Que somos sensíveis ao tentar imprimir na essência dele a nossa própria essência. E que somos frágeis enquanto portadores dessa emoção. Que vamos nos quebrar, que vamos nos derreter em todas as tentativas de alcançar essa essência. E se não conseguimos, se o outro não nos reconhece, se não aceita esse cargo de importante para nós que lhes conferimos, a dor que advêm é a maior desse mundo.
Existe uma emoção tão grande quanto, que é a de ser mãe. O ser mãe é um pedaço da gente que sai para fora, para o mundo. Mas o amor que dedicamos a um outro, esse sentimento que nos coloca no mundo do outro, isso é querer um outro de fora para dentro. É fazer do outro parte de nós. É quando a gente ama tanto que deseja aquele alguém dentro da gente. Acredito que essa doação é ainda maior. Um filho sai para o mundo e vai criar outro mundo  com um alguém. Esse outro tipo de amor, não. São dois mundos que se tornam um só. É muito bonito, é muito forte,  isso. E o  ser humano conhece a verdadeira felicidade quando olha para o ser amado e vê a própria importância, vê o quanto significa, no olhar do outro. Isso é o real, o extenso da vida. Todos os outros valores, todas as motivações, as significâncias  terminam aqui. No próprio reconhecimento dentro do olhar do ser amado.
            Mas existe o fio da enxada. Nenhuma dor desse mundo supera a dor da rejeição. Porque é a constatação da nossa invisibilidade para o outro, do tanto faz. Do “não quero fazer parte do seu mundo”. Nem a morte é pior que isso. A morte é inevitável. Extrapola nosso entendimento. Quando a morte leva alguém que amamos não pensamos em desamor, em desprezo. Não há o que fazer. Fica uma dor, uma saudade, mas com o tempo a vida volta. Mas a desimportância que temos diante de um amor que queremos isso nos acompanha pela vida toda. Não há conformação, não há consolo, não há nada que compense. É o fio do ferro amolado, que corta , que sangra.


Lécia Freitas

domingo, 18 de dezembro de 2016

O OUTRO PARA SERMOS FELIZES

                Sempre vemos por aí a definição de felicidade. E os autores de livros de autoajuda mais os psicólogos de plantão são uânimes em afirmar que a felicidade é de  dentro para fora, depende apenas de si mesmo, de um estado de espírito, de uma autoestima elevada.
            Até concordo que para sentir um bem estar quase físico ditado pela própria satisfação, em diversos momentos é necessário tudo isso. No entanto, acredito que a felicidade  só existe a partir do interesse do outro por nós. Tudo que se faz nessa vida é pensando na aprovação do outro.  Qualquer ação ainda que seja para o entrenimento passa pelo trabalho do outro e o trabalho para ser valorizado deve ser reconhecido. Isso te dá uma felicidade enorme.
            Qualquer que sejam os sentimentos de um humano, perpassam pela ideia do outro, não existem sem a figura do outro. Você pode até sentir um bem estar enorme porque pensa no planeta, e na antureza. Você pode até sentir uma felicidadezinha. por contribuir. Porém esse sentimento vai ser muito maior se voce admitir que o faz porque pensa na continuidade do ser humano nesta vida, neste planeta. Senão para que preservar a terra se os humanos não vão usufruir?
            No amor, mais que em qualquer sentimento você precisa do outro para ser feliz. Não tem como amar e ser feliz sozinho.
            Você tem que se cuidar, até pela saúde, tem que se gostar para se enfeitar e ser mais interessante, atraente ao olhar do outro. Por que as pessoas passam horas nos salões, e academias, se enfeitando até com dores e sacrificios? E caros... Pode até ser para fazer inveja nas outras, mas tenha certeza: há um amor por trás disso.
            Dizer que você tem que se amar primeiro é outra história. Ninguém é feliz por muito tempo amando a si mesmo. Chega uma hora que a gente precisa da risada do outro, do calor do outro, do brilho do olhar do outro. Até das pequenas implicâncias.
Precisamos do outro, da sua aprovação ante nossas tentativas de acertos, precisamos do aplauso do outro ante nossos sucessos para que se completem. Para o perdão de nossas faltas. Até para confirmar nossa fraqueza como humano e ser inferior. Vamos buscar isso no outro, o que nos conforta. E o sucesso do outro nos impulsiona. E é querendo o outro que tentamos melhorar, sermos visíveis, sermos notados e reconhecidos. Não adianta o mundo inteiro nos reconhecer, se falta uma pessoa específica.
            No sexo, pulsão fundamental e tão prazerosa! Tão indispensável em nossas vidas, largamente estudado, que se não realizado é o motivo de tantas doenças da alma, tantos conflitos. Podemos ter um orgasmo solitário de diversas formas, hoje. Todos sabem dos apetrechos, das possibilidades, dos estimuladores. Devido a essas parafernálias o orgasmo pode ser até mais intenso, mais duradouro, mas nada, nada, vai substituir aquela rapidinha debaixo da escada ou do muro, ou no elevador, sei lá, que ousamos, com o nosso amor, porque não foi possível esperar, tamanha vontade. Nada vai substituir aquele hálito, aquele cheiro. Não sei, de repente , já deve existir no mercado algo parecido com um queixo assim com barba, mas não nunca será como a dele.
            Nada irá substituir a emoção de um boa noite de madrugada, de uma mensagem azulada e respondida. De uma carinha pulando no celular, um recadinho em um guardanapo de  lanchonete, coisas bobas que para nós, os amantes, significam tanto!
            Mas vejam que essas felicidades indescritíveis dependem do outro. Porque depende da emoção que o outro suscita em nós. Essa emoção que nos faz sentirmos vivos e parte do mundo do outro.

Lécia Freitas





quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A PRIMEIRA E A ÚLTIMA PEDRA


Não me fale de você: eu realmente não me importo
não me mostre sua dor, perceba os pedaços que me faltam
não me fale de sua solidão, perceba que me tiraram a vontade de ter alguém por perto
não me fale de sua escuridão, veja que  arrancaram  minha capacidade de ver
não me diga que está perdido, perceba que  fecharam todos os  meus caminhos
não me mostre suas mãos vazias, perceba que me roubaram a capacidade de dádivas.
não me fale em decepção que eu te  mostro um coração seco e duro
não me fale de suas lágrimas, perceba  o  vinco amargo que se tornou  minha boca
não me fale em deserto, perceba minha sede diante do rio que corre
não me fale em infelicidade e sofrimento, perceba que murcharam a minha alma
não me fale de prisões, que lhe mostro as sobras putrefatas das asas
não me fale de sua descrença, acredite que  todos os meus deuses estão mortos.
não me fale de você: eu realmente não me importo
e não tente me erguer, quando cavou mais fundo o meu poço

Lécia Freitas




quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

EM CARNE VIVA

eu queria toda noite, todo dia, ser uma viola
e que você viesse com seus dedos
em luvas de seda finissimas
e me tirasse acordes
do fim do mundo
acordando as estrelas e
e os vagalumes.
eu queria toda noite
todo dia
que voce tocasse meu coração
e que as flores despetalassem
sangrando
em carne viva
na madrugada eterna
desse amor.
Que o dia não acordasse nunca
e que você ficasse querendo
com seus dedos
em acordes sem fim.

Lécia Freitas



terça-feira, 13 de dezembro de 2016

LINDA GRAMÍNEA


Linda gramínea na sua inutilidade de ser linda! Não servirá para nada, além de sua existência. Não servirá de adorno em altares nem em tumbas, visto que simples e anônima. Nem será dada a um amor como prova de afeição. Não servirá de pasto a nenhum ruminante, verdade maior das gramíneas, posto que viceja em rachaduras do cimento que me separa da terra pura, na porta de minha cozinha. Trazida decerto por um pé de vento desavisado aninhou-se por aqui, findando seu bailado como semente e passando a outra fase sem pedir licença, sabedora da sua desimportância neste mundo humano. E agora enfrenta corajosamente as intempéries, seja a chuva torrencial que cai, cai e depois escorre também inútil e enlameada, ou o sol inclemente que permeia, lembrando que os tempos são outros, que o clima está doido e que tudo se encaminha para um fim inexorável. Mas apesar dessa certeza, balança coreografada pelo vento ao som das Maritacas e de todos os Fin-fins que sobrevoam minha vida, dando-se importância apenas por existir, por cumprir um destino, sem se preocupar com o fim dessa estação, quando toda gramínea seca, ou com o fio da enxada que fatalmente extingue as gramíneas. Linda gramínea, que deixa de ser inútil, porque enfeita meus olhos em meio a umidade que persiste diante da ausência de um amor que, presente por se fazer inteiro, não te vê, posto que do outro lado do mundo. E que me fala da poesia mais perfeita, e mais pura que existe, em meio a essa tristeza, a essa deseperança toda, tão melancólica quanto descaridosa. E que me faz quedar pensativa ante o mistério de suas linhas perfeitamente iguais e tão harmonicamente dispostas, distraindo-me de pensamentos fixos e dolorosos. Como é que pode, de uma mistura sair algo tão puro? Como é que pode um alimento, talvez estrume, talvez algum verme decomposto, fazer surgir na mesma raiz o verde tão verdemente brilhante de suas folhas, e o branco tão alvo de suas florzinhas? Sem nenhuma fama, é certo, nos catálogos imponentes das plantas, mas tão importante na porta de minha cozinha. Não sendo minha, não sendo de ninguém, pertence a si mesma, sem holofotes e sem pretensão alguma, traz magia ao meu quintal e a esse mundo desconhecido e fabuloso dos muitos insetos que aqui vivem. Talvez que algum botânico possa explicar cientificamente essa variação de cores, talvez até te dê alguma importância no mundo das plantas e das gramíneas, mas não saberá explicar a fórmula usada em toda sua criação. Não saberá da poesia existente em sua existência inútil, mas tão explícita, tão visível aos poetas e aos amantes que amam amores do outro lado do mundo dos humanos, e que precisam de uma gramínea em sua porta para suportar as distâncias geográficas desse mundo. Precisam de você, minha linda gramínea, tão inútil em seu bailado ao vento, em sua gradação de cores brilhantes em sua perfeição de formas desenhada pelo Dono dos jardins. Que te concebeu dessa forma, determinando que menininhas sonhadoras e cheias de poesia te amassem assim, tão inútil e tão necessária na sua inutilidade, apenas por enfeitar a vida, suavizando o sentir .

Lécia Freitas



domingo, 11 de dezembro de 2016

AS VIAGENS


            Às vezes, para ser sano, precisamos atravessar a tênue linha da loucura. Porque ser louco nos protege da realidade. Essa realidade que nos consome. Ser louco é aceitar a metáfora que a vida nos oferece, é acreditar em coisas que no real não existem. E das quais precisamos. Para suportarmos o real embarcamos em viagens imaginadas dentro de nós, ou dentro de um mundo onde vamos buscar o que o real não nos oferece. Ou que, quase sempre, nos tira. A capacidade de ser louco e de fazer viagens interplanetárias e intro-humanas devolve a sanidade que o real aniquila. É preciso ser louco para não se integrar à paranoia verdadeira. A realidade, na verdade, não existe. Se existisse seria a mesma para todos. E não é o que acontece. Um mesmo fato é visto e sentido de diversas formas. De acordo com o sentimento de cada um. O que para um indivíduo não tem importância, para outro tem a dimensão que extrapola a própria realidade, de tão significativo. Portanto, a realidade que caracteriza a sanidade não existe. Existe a loucura de cada um. Então, o ser humano que é feliz porque viu o raio da lua e sentiu que era o mesmo que encantou o seu amor do outro lado do mundo, usou do ácido mais poderoso: o ácido do amor! Então, o humanoide que flutua no tempo e no espaço porque sentiu o vento na pele e percebeu o cheiro do seu amor,  porque esse mesmo vento esteve do outro lado do mundo e despenteou aqueles cabelos e refrescou aquela outra pele, vive a metáfora mais arrepiante, mais doce, mais viajada,  que alguém pode ter. É o desatino mais sensato,  o paradoxo mais combinado, a loucura mais real.


Lécia Freitas






sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

COM CAPIM CIDREIRA


            Quando você  planta uma muda de couve ou de hortelã, não precisa muitos cuidados. Se for uma planta rara, aí sim, você vai dispensar toda atenção para que ela cresça. Da mesma  forma, quando em um sentimento qualquer, não se preocupa. Ele cresce sozinho se você deixar. Mas se tem um sentimento de valor, um sentimento raro há muito esperado, você vai cuidar dele! Vai agasalhá-lho para que não sinta frio. Vai colocá-lo em redoma, talvez traga-o para debaixo de cobertas em noites de tormenta.  E por ser uma planta rara, vai amordaçar todos os carneiros exuperyanos para que não a coma. Vai tirar as possíveis larvas de borboletas de asas amarelas, ou outras cores, que gostam de plantas assim. Vai buscar para essa planta os lugares mais sombrios e escondidos ao lado de nascentes de águas cristalinas que só existem incrustadas no pé de serras azuis de Minas Gerais. Se houver feridas vai cuidá-las com unguentos como os de Camurça, feito de malva macerada com  cravo curtida em óleos de jamim em potes de pedra. Vai tirar-lhe as pedras do caminho varrendo com vassoura de ramos de alecrim  e aspergir água de cheiro fresca para que não acumule nenhum pó nos vincos e dobras. Vai alimentá-lo com  tâmaras frescas, rosquinhas de nata com creme, e chás de capim cidreira e essência de limão adoçado com mel de lindas e brancas flores silvestres. Não irá cantar para ele o canto do Tiê, que estará bicando uma manga, nem da Viuvinha que chora pelo amor que perdeu, mas cantará o mesmo som ,que não cessa, do vento que passa sussurrando em meio às folhas do bambu. Vai enfeitá-lo, não com as cores do arco-íris, mas com as fitas que enfeitam as bandeiras de São João em  noites de dança ao redor de fogueiras. E vai alegrá-lo com a dança mais alegre das cantigas de rodas enquanto as folhas caem das árvores no mesmo ritmo e compasso, bailando, levando para longe as notícias da mata e dos seus habitantes desde o mais simples até o mais ilustre seja uma planta, um bicho ou uma ideia abstrata. Vai sequestrar para ele, a emoção na lágrima contida da moça que se debruça na janela para ver a vida passar com seu riso escancarado em boca vermelha de batom. Para ele vai prender o raio perpendicular da lua que atravessa a janela ou aquele que se inclina vaidoso sobre a lagoa por se ver tão belo. Vai beijá-lo tanto, tanto com a boca fresca de manjericão e lábios carnudos de goiaba vermelha, que só amadurecem em meados de abril e que recebeu a visita das abelhas  de asas douradas, quando ainda botão branquinho feito a geada que cai do ceu. Não vai represar para ele a água do riachinho que brinca entre as pedras,  brilhando com as luzinhas que roubou do céu, mas vai trazer na memória todos os mistérios da terra, e da Terra do Nunca onde crianças não perdem a inocência porque não se tornam  homens, e das galáxias onde estão escritas todas as histórias de todos os tempos, refletidas em seu espelho concâvo e rodando no espaço sem  fim. Vai lutar com unhas e dentes e todos os golpes capazes com a mais linda flor  para dar-lhe sempre possibilidades evitando as coisas findas,  e que lindas, nunca passarão.  


Lécia Freitas