quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A tristeza do Homem consiste em se saber mortal. Porque ele sabe que enquanto tenta, o tempo está passando. É quando o ser baqueia, porque no fundo não há o que que fazer. A única certeza nos faz tão pequenos, tão miseráveis, tão nulos! Surge então a desesperança!

Lécia Freitas




Todos os dias terminam na mesma hora: os bons e os ruins. Portanto, não se aflija! "A cada dia basta o seu cuidado!"

Lécia Freitas


Gosto principalmente de pessoas que não gostam de mim. Por algum motivo eu as tiro de seu juízo perfeito e mexo com o seu emocional. Ter ódio ou aversão em alguém é ser submisso a essa pessoa.

Alberto Freitas



As palavras ditas sabem mais longe. No entanto, prefiro as escondidas. Essas, dizem muito mais!
Que venha a tarde!
Lécia Freitas





Meu mundo nunca foi bonito nem perfeito. Muito menos eu. Mas a cada dia eu busquei tranformá-lo em melhor. E das muitas vezes que falhei, meu Deus, como falhei, eu tentei outra vez. E de novo. Quantas vezes fosse necessário. Aqui estou, a cada dia, despedaçando dentro de mim tudo que é velho e morto. Pede-me para sorrir? Eu o faço, às vezes...também às vezes, é preciso aceitar as incógnitas.
Lécia Freitas


A gente sempre deixa pra depois
porque acredita que é melhor deixar o tempo passar
que novos tempos virão, 
que o tempo cura qualquer ferida
e a gente finge que está tudo bem
que o canto de anus nessas manhãs de primavera
traz o mesmo encantamento de outrora
que o “california dreams” dos renato e seus blue caps
ainda conseguem transpor a magia dos anos 80
insiste em dizer que está tudo lindo
sem perceber que o céu não está tão azul 
quando na verdade está

não se pode admitir 
que as coisas não estão funcionando
porque de concreto só existem lembranças
e as verdades deixaram de ser vistas e 
que viver de fantasia nunca foi bom 
nem no mundo de alice
mas a gente prefere viver de mentira
para não dar ao outro
o poder que ele já tem
por nos governar mesmo sem saber
porque pensamos continuamente

e a gente tem a ilusão que a vida segue
quando na verdade está parada
esperando um movimento qualquer
Que nos tire dessa inércia
do automotismo involuntário
que nos impede de viver o real
porque o medo de sofrer
de sangrar 
pela realidade de uma ausência
é bem maior

Lécia Freitas



Desamor não é só a falta de amor. É a certeza de que nunca haverá amor. Mas a vontade que chama, um dia traz o amor de volta. E ele volta a existir.

Lécia Freitas


terça-feira, 31 de outubro de 2017

Na noite que encomprida, tão solitária, apenas o sol deixou seu rastro de quentura. No resto, o acorde me traz momentos que não vão voltar. O tempo sempre para aqui. Eu volto a todos os lugares sobre seu rastro. Nem assim...o eco mudo de um nome dilata a memória e eu cheiro o mundo procurando... a vida arrasta...Percebo as horas, mas o oco entre os braços falam que eu estive antes, eu estive antes antes.

Lécia Freitas



Posso morrer hoje. Os filhos estão criados, algumas contas que virão, o que tem dá para pagar. Nenhum passarinho irá morrer de fome, porque nunca os criei. Sempre achei que isso era coisa dos céus. As plantas, não as tenho mais. Morreram todas na última seca. Posso morrer hoje ou amanha ou qualquer dia. Deixarei uns amores. O maior, no entanto, levarei metade comigo, será minha companhia aonde eu for. Vamos gargalhar juntos pela eternidade, felizes...rindo porque nem a morte conseguirá nos separar. A outra metade ficará para sempre neste mundo a ecoar entre o vento tudo que senti. Estará na memória do imorredouro.

Lécia Freitas






quarta-feira, 25 de outubro de 2017

No pequeno espaço entre a pena e o papel está todo o meu sentimento. E, às vezes, é tão denso, tão fundo que não há como externá-lo. Não consigo me descobrir. Embora todo o afã das palavras esteja na superfície da minha língua, embore o coração esteja aberto e haja rios escorrendo, por tanto, não consigo extravasar o que me contém. Nessas horas, percebo como sou pequena ante a verdade de um amor que não teve chance de alcançar a plenitude. Apenas existir. E como isso dói, meu Deus!
Lécia Freitas



sexta-feira, 20 de outubro de 2017


DO QUE NÃO HOUVE

Não pode haver dor no que passou
A carne arrancada
É adubo
Torna-se vida
O grito 
Está no desejo 
Do que não houve
No limbo das coisas inexistentes
Da imaginação abortada
Ante impossibilidades
O grito
E depois o silêncio
Do que não pode ser dito

Lécia Freitas


Amei-te tantas vezes
Que de tanto amar
Já não sei como
Amei-te tanto que 
Mesmo esgotada
Ainda o quis
E por tanto te amar
Gastei o amor
Que existia
Fui até a última gota
A última nota
O suspiro derradeiro
Do que havia
Em mim
Mas se exaure o amor
O que será, o que será

Lécia Freitas



sábado, 7 de outubro de 2017


Todos nós temos nossas batalhas diárias e que guardamos no íntimo até por respeito ao outro. Seja gentil, portanto, com as pessoas . Talvez, a sua palavra educada e atenciosa seja o único refrigério que irá aliviar um pouco a tormenta alheia!


Lecia Freitas






O ser humano precisa do sonho! É ele a mola propulsora para a vida, mesmo inconsciente! Contudo, às vezes, torna-se tão essencial que, paradoxalmente, fazemos de tudo para não alcançá-lo. Vivemos para ele, e assim fugimos do real! Se o realizamos o que será de nossa vida?


Lécia Freitas












É inerente ao ser humano criar expectativas. Por mais que se tente proteger, a possibilidade de um acontecimento feliz desarma qualquer um. E a decepção vem, justamente, de onde se acreditava nem ser necessária a imunidade.O que vale é pegar o papel de trouxa e fazer lindos origamis. Agarre-se a qualquer coisa e siga o baile!

Lécia Freitas




ARROGÂNCIA


Pessoas arrogantes são as mais difíceis de lidar. Aquelas que acham que sabem de tudo, que são politizadas e aí estão com a razão, que defendem todos os direitos das minorias, e que por isso devem ser seguidas. Nossa, tanta coisa! Eu penso que na vida devemos ser humildes. Mesmo quem é ateu e não acredita, de jeito nenhum, em qualquer Força Divina, não deve desprezar uma oração. Porque quando alguém se ajoelha e reza está desejando o bem. Temos que ser pelo menos gratos. Outra coisa é uma pessoa achar que pode resolver seus problemas, sozinho. Uma pessoa que consegue isso e administra a sua vida sem pedir hora nenhuma, é realmente muito foda. Mas, também aí, eu acho que ela deve se sentir grata e reconhecer, nem que seja à vida, essa capacidade de autossuficiência. Para mim, no entanto isso cheira a arrogância. Achar que não precisa de Deus. Excluir a ajuda Dele. Ainda mais quando são questões extremamente complexas como a dos imigrantes. 

Vejo perfeitamente, que toda a humanidade tem uma parcela de responsabilidade no que está acontecendo. Reconheço, também, que sou completamente ignorante a respeito, desconhecendo as causas e muitas das consequências dessa tragédia. Mas sei que é terrível e vergonhosa. E temos que rezar muito, cada um com sua fé, para que se encontre uma solução, para que aquelas pessoas encontrem um lugar de paz para viver suas vidas, que crianças cresçam e sejam felizes. 
Eu acho que pedir a Deus qualquer coisa que estejamos precisando independe se somos responsáveis ou não. É reconhecer nossa pequenez, nossa miserabilidade.


Lécia Freitas

O amor é sempre uma direção, um lugar para ir, um alguém para permanecer. Nunca um estado de espírito.

Lécia Freitas



Bem que esses vaticinadores poderiam estar certos desta vez e então eu teria um bom motivo para te procurar e dizer que devemos esperar juntos pela hecatombe, e assim iríamos ficar de mãos dadas olhando o último por do sol, ou, na praia, como no filme, esperando a última onda do fim do mundo. 
Lécia Freitas




Às vezes, vem sorrateira e aos poucos vai invadindo tudo, sem você se dar conta. Em ocasiões outras, vem aos borbotões, como enchente avassaladora. Não importa como, de todo jeito, para quem a sente, é forma de vida. É companheira pela vida afora, a Poesia. Dela faço meu esteio para suportar todos os reveses. E assim vou vivendo, nas asas do passarinho. E nas finezas dos sentimentos.

Lécia Freitas





Nunca foi rima! Isso é linguagem. Você tem que viajar fundo para alcançá-la. Tem que ser forte para receber-lhe os golpes na alma. E delicado para sentir-lhe a sutileza. Poesia é sempre um estado de coisas! 

Lécia Freitas





Muitos deles dizem sobre as palavras e da poesia que advém delas. Estudam as palavras e os seus efeitos de acordo com as roupagens que se lhes acrescentam em busca dessa poesia fina, requintada. É certo! Entretanto, eu acredito, eu sinto a poesia nos escaninhos do sentimento; no olhar apurado que busca o risco formado depois do voo, seja do passarinho, seja da flor levada pelo vento. Seja nos rastros da água que vai cantando no riachinho. 

Lécia Freitas


Eu vejo o meu amor como finalmente cavalos selvagens em um campo florido, livres. Assim eu sinto o meu amor! Essa imagem é minha e legítima. Ninguem mais a vê. E sendo assim, ninguém a desfigura!

Lécia Freitas






As pessoas não mantêm relacionamentos rasos, só pelos belos olhos, por muito tempo. Tavez um dia, ou outro,mas não por muito tempo. Quem fica, ali pelejando ao nosso lado é porque de alguma forma nos ama. "E qualquer amor é um pouco de saúde. É um descanso na loucura". Quem fica junto ali entendendo e aceitando imperfeições são aquelas que gostam de verdade. Essas, devemos fazer de tudo para que permaneçam. Essas, são aquelas a quem devemos devotar nosso apreço, nosso cuidado. E nosso amor!
Lécia Freitas



Amei cada palavra que não me disse quando entre lábios e língua também me calava.


Lécia Freitas




TORMENTA
calaram-se, os trovões
passou, a tempestade
meu terreiro, esse ficou “coalhadinho” de flores
as Marias-Sem-Vergonhas 
vieram todas para mim
o vento enfurecido
levou os ultimos resquícios do inverno
molhou o chão, a folha
lavou a tarde
a natureza ensina
que tudo passa
a tormenta,
e as águas que trazem
Lécia Freitas



O MAR
Eu vi o mar,era noite
O mar beijava a areia
E até no nome havia poesia
Em São Pedro da Aldeia
Depois, eu ouvi o mar
Pensei, fossem trovões
E alguém disse, rindo-se
“São as ondas”.
Somente na manhã
Eu vi o mar
As gaivotas
Os barcos
E o azul...
Sou mineira, das montanhas
Não tenho ligação alguma com o mar
Não me diz nada
Mas o som, o azul
Esses, nunca esqueci...
Lécia Freitas


Como não amar este vasto e complexo universo que é o ser humano? Até porque, se não amar não será amado, diz a Física. Pelo menos a alguns é possível e necessário amar.
Ame, pois!
Lecia Freitas




Não importa o que o outro considera sagrado. Não é da alçada de ninguém a não ser do próprio. Respeite, apenas. Não acredite, em circunstância alguma, que a sua fé é mais legítima que a do outro: não é! Nem pense que seu semelhante é mais fraco ou intectualmente menor por divinizar o que você desconhece. Tenha em mente que o princípio maior é o respeito ao próximo, em todos os aspectos. 


Lécia Freitas




sábado, 30 de setembro de 2017

O CONHECIMENTO

            Devia ter uns 7 a 8 anos, e naquele tempo a vida era muito boa. Sem preocupações, e com o carinho  da avó e dos irmãos. Já não tinha mãe, mas a vida seguia.
            Sobre as coisas do mundo, alguém lhe dissera que se subisse até uma das serras, que limitavam sua visão, conseguiria tocar o céu com as mãos. E ela acreditava nisso, assim como acreditava que um dia, quando morresse, moraria lá, naquele azul.
            Entretanto, havia outros mistérios que martelavam na sua cabecinha. Já sabia que a terra era redonda, qua havia os mares e muitas outras coisas. Porém, não conseguia formar uma imagem do mundo por mais que tentasse. Imaginava a terra como uma bola enorme e que todos moravam lá dentro. Então, não conseguia entender a posição do céu. Como o céu era infinito se estava dentro da bola? Ficava horas pensando nisso. Não conseguia entender, e nem explicar a alguém o que não entendia.
            Sempre fora contemplativa! Gostava de ficar parada, olhando o serviço muído das formigas. Acompanhava a correição até o formigueiro e gostava de imaginar o que elas conversavam quando se cruzavam no caminho. Todas as formigas fazem isso! Talvez confirmem a localização exata. Tentava ajudar aquelas que carregavam um peso extra, mas isso nunca deu certo. A operária deixava o fardo e saia ziguezagueando pelo matinho ralo.
            Também ficava na beira do riachinho. Fitava uma gota d’água apenas e a seguia por entre as pedras roliças do fundo. Essas pedras eram como as teclas de um piano ou as cordas de uma viola. E as gotas de água cantavam, cantavam... quando passavam por elas. E ainda traziam umas luzinhas faiscantes, reflexo do sol! Tão bonito era seu mundo! Os sons, os cheiros, que haviam por lá, nunca mais encontrou.
            No quintal havia muitas bananeiras, e por isso era um local silencioso, fresco e gostoso de ficar. Ao lado, nascera um pé de alecrim. O alecrim do mato é muito usado nas roças para fazer vassouras. Pode ser usado para varrer o terreiro e o forno de barro. Esses fornos são aquecidos com lenha, que depois são varridas para que se possa introduzir as peças de lata com os biscoitos. Nos dias  que as biscoiteiras trabalham, a quantidade de cheiros que se exalam, realmente fica na nossa memória. O alecrim, ao ser queimado na quentura do forno, soltava um cheiro que se misturava ao das quitandas e isso não se consegue esquecer. Ela ainda não ouvira falar no Meu Pé de Laranja-lima, mas também amava o pé de alecrim. Nem tampouco conhecia os Jardins de Compenhague. Até hoje, em suas lembranças, acha que ele é  o mais lindo de sua vida.
            Um dia, depois da escola, estava deitada debaixo do pé de alecrim, sentindo todo a gostosura de estar ali, dentro da natureza que amava tanto: ouvindo os passarinhos na mangueira; observando o céu azulzinho e pensando até onde ia dar aquele céu. Onde ele terminaria? Do quê era feito? O que teria depois do azul?...
            De repente nasceu! Como se outra vida começasse ali, entendeu num átimo como se explicava aquele mistério! Sentiu vontade de abraçar o pé de alecrim! E sorria...sorria por fora, por dentro... Era toda sorriso! O mundo era em cima da bola, e não dentro! E o céu era o resto! O espaço de que tanto falavam!
            Entendeu o mar, os oceanos, tudo que a Geografia fala e que veria bem mais tarde, na escola.  Entendeu, então, que nunca conseguiria alcançar o céu com as mãos, por mais alta que fosse a serra.
            Isso foi há muito tempo, mais de cinquenta anos! No entanto, significou tanto que ainda guarda na memória a emoção da descoberta. Teve outras, ao longo da vida, mas nenhuma como essa! Compreendeu enfim, que nascemos a cada conhecimento que apreendemos. Que acumulamos essas emoções e vamos nos fazendo seres inteligentes. Porém, cada vez mais curiosos e sedentos de novas descobertas. É certo que todo ser humano deve ter bens materiais que irão dar um conforto, condições dignas de sobrevivência, etc. Contudo deve buscar o conhecimento.  No final das contas, é isso o que importa.


Lécia Freitas


terça-feira, 12 de setembro de 2017

O AMOR QUE EU PERDI

o monte de minutos
e de horas me admitem 
que esse amor eu perdi
perdi porque não o tenho
não o encontro onde deixei
não está na minha sala
nem aquece minha vida
está liso meu lençol
e triste confirmo
esse amor eu perdi
cheiro o mundo
deslacro gavetas
busco o rastro
firo a ânsia
latejo a alma
mas esse amor... eu perdi
firmo um riso
ensaio a dança
beijo outra boca
vivo a vida
e amo outro alguem
mas aquele amor eu perdi.

Lécia Freitas

domingo, 10 de setembro de 2017

MINHA VIDA DE MENINA

No fundo do quintal de casa passava um córrego com águas frias e cantantes. Não oferecia perigo, mas ainda assim eu não me aventurava a entrar nele, porque como se afunilava a correnteza também era mais forte. Antes de passar no quintal de minha vó, o córrego se espraiava no lote que era do meu tio. Ali, sim, podia entrar. Rasinho, a  água  só cobria os pés. Friinha, cristalina, uma delícia. E ainda tinha as piabinhas que ficavam rodeando. Do outro lado do lote, tinha um pé de jambelão, que eu adorava. O outro terreno era de outro tio e ele deixava a gente plantar “a meia”. Na época da semeadura, eu ajudava meus irmãos a plantar o milho e o feijão na mesma cova. Eles iam na frente com a enxada fazendo a cova e eu atrás jogava  as sementes, e com o pé ajeitava a terra. Era um serviço que eu gostava. Também de capinar os matinhos, quando o milho já tinha crescido.
Seguindo  curso do córrego, no  fim, havia muitas plantas nas margens cujas folhas lambiam as águas. Suas flores eram brancas e cheirosas, acho que eram um tipo de lírio. A queda da água gerava energia mas, tão pouca que as lâmpadas nos postes, mais pareciam um tomate maduro, e só à noite. Com isso, a iluminação era feita por meio de lamparinas a querosene. Tinham um cheiro característico. A casa de minha avó era de pau-a–pique e, nas janelas de madeiras chanfradas, bem rústicas, haviam frestas por onde entrava  o vento e os fantasmas da noite lá de fora. A chama da lamparina bamboleava ao sabor do vento fazendo as sombras dançarem o que aumentava o medo. Eu queria sempre dormir no canto da cama de minha vó, mas minha irmã mais velha não deixava.
A minha irmã era mais chegada no meu irmão e como eu ainda era bem pequena não podia acompanhá-los nas brincadeiras e aventuras. Isso me matava. Em época de chuva – naquele tempo, as estações seguiam à risca o clima, e assim, na estação das águas chovia dia e noites a fio – quando o córrego enchia a transbordar, minha vó fazia um angu bem duro que eles colocavam no jequi para pegar peixes. Eu não podia ir junto mas ficava feliz quando retornavam com um monte de piabas e bagres. Isso diversificava nossa alimentação. Muitos tipos de legumes e frutas só vim a conhecer depois de adulta. Algumas frutas que eu conheci nas minhas andanças pelo mato nunca mais vi. 
Meu pai trabalhava roçando pastos e eu levava merenda para ele na volta do dia. Andava léguas, sozinha, e nunca tive medo. Talvez de alguma vaca parida, mas nem de cobra tinha medo. Não havia perigo.  Eu conseguia encontrar o meu pai naquela imensidão observando a direção em que o mato estava mais, ou menos, murcho. Eu adorava levar o café para o meu pai. Nesse momento, eu acreditava que ele estava gostando de mim.
Nenhum de nós possuía calçados, e como era muito frio os pés ressecavam e rachavam.  Ficavam com uma aparência feia, parecendo sujos, e os mais velhos diziam que era “piririca”. Assim, nos obrigavam a lavar os pés com sabugo de milho e “cacos” de telha. Isso os feria até sangrar piorando a situação. Para nós, isso era natural, não percebíamos como maldade.
Lembro com saudade de algumas coisa daquela época: a escola, por exemplo. Amava a escola! Assim como amava, também, as professoras, os meus cadernos, tudo. Os cadernos eram doados pelo governo. Eram poucas folhas, encardidas, mesmo assim eu os amava. Não tinha livros, mas eu lia todos da bilbioteca da escola. Até que proibiram porque disseram que eu pecisava brincar no horário do recreio, e não podia ficar só lendo. Eu só faltava de escola, para colher café, que era uma coisa que eu gostava demais. Sempre inventava uma dor para minha vó deixar eu faltar. Minha vó era muito brava, mas eu gostava dela. Ela me mimava muito e meus irmãos morriam de raiva por causa disso. Mas de vez em quando, dava umas coças de vara, de “pelar”. E colocava de castigo, sem poder ir brincar na rua.
Sempre gostei de ficar sozinha, de andar sozinha, observando as coisas miúdas do caminho: os matos, os bichinhos, as pedras...Sempre “viajei” nessas coisas. Ficava tempo olhando as formigas, os outros insetos... por causa disso achavam que eu estava doente, com lombrigas. E me davam uns remédios horrorosos.

Eu me refugiava sempre no meio do mato. Às vezes, andava a cavalo, em pelo mesmo, por horas. Às vezes, subia em árvores, enormes, frondosas, e assim me escondia. Deixava que me procurassem. Queria hoje, também, subir em árvores e me esconder.
Lécia Freitas

sábado, 9 de setembro de 2017

Nada é eterno. Devemos saber disso. No entanto, o paradoxo nos diz que o que fica na memória é para sempre. É preciso acreditar para sermos sanos.

Lécia Freitas


Percebo em meus ossos que o inverno esta chegando. Mas podemosdizer que o tempo está meio doido. Ou as coisas todas. Porque vi uma Fogo-apagou carregando, no bico, um capim seco. Talvez ela tenha encontrado o amor bem antes. Não conseguiu esperar setembro. O amor tem pressa.

Lécia Freitas


O espírito aquieta-se, embora a alma dance em todas as cores, Os grilos entoam sua presença na canção da noite enquanto a lua sorri seu brilho de amante enamorada. E eu, eu estou feliz, pois que tenho um amor para mim.

Lécia Freitas


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Quando se retesa o arco em direção a um pretenso inimigo e uma águaviva pousa na ponta da flecha como um aviso de que o amor vem vindo, instaura-se a poesia. Mas ela não é assim tão explícita. É preciso percebê-la nas coisas pequenas e até nebulosas, escondidas: os sinais. É preciso captar-lhe a essência.

Lécia Freitas