domingo, 14 de setembro de 2014

"A POÉTICA ROSEANA" Capítulo 5.6.4


              O autor também surpreende ao criar verbos que atribuem outro sentido às ações, expandindo as possibilidades denotativas das palavras e conferindo um mérito poético em termos absolutamente insólitos, como se pode conferir em fragmentos do texto na obra:
[...] adramado pensei em minha mãe (comovido) [...] / [...]eles   desqueriam (rejeitavam) [...] / [...] jagunceando (atuando como jagunços) [...]  /  [...] Eu mesmeava (repetia) [...]  /  [...] manhãzando  ali (amanhecendo) [...]  /  [...]  prosapeavam (conversavam) [...]  /  [...] Tapejar o bando de Joca Ramiro por atalhos ( conhecer os caminhos para conduzir) [...] (grifos nossos).
            Comumente o termo “sertão” é o que mais adquire conotação no texto. Também a cor verde quando Riobaldo fala dos olhos de Diadorim. Outro exemplo poético está em: “o silêncio é verde. O senhor pegue o silêncio e põe no colo. / O verde carteado do grameal. (ROSA, 2006, p. 290-313). Outros elementos da natureza como o vento  em: “vento de não deixar se formar orvalho [...]  / [...] um punhado quente de vento passante entre duas palmas de palmeiras (ROSA ,2006, p.26); os animaizinhos, como os grilos e os pássaros, com suas cores e cantos, também assumem um efeito conotativo. O autor atribui à palmeira buriti, em diversos momentos, uma conotação especial o que demonstra o amor que tem por esse espécime da flora. “E como cada vereda, quando beirávamos, por seu resfriado, acenava para a gente um fino sossego sem notícia – todo buritizal e florestal: ramagem e amar em água”. (ROSA , 1976, p. 233).
            Também em outras obras Guimarães Rosa fala com emoção dessa palmeira:
[...] os buritis faziam alteza, com suas vassouras de flores. Só um capim de vereda, que doidava de ser verde – verde, verde, verdeal. Sob oculto, nesses verdes, um riachinho se explicava: com a água ciririca – “Sou riacho que nunca seca...” – de verdade, não secava. Aquele riachinho residia tudo. (ROSA “Uma estória de amor”, do Corpo de baile, 1977, p. 189)
Mas o buriti era tão exato de bonito! (ROSA “Campo geral”, do Corpo de baile, 1977, p. 67).
O buriti? Um grande verde pássaro, fortes vezes. Os buritis estacados, mas onde os ventos se semeiam. (ROSA, “Buriti”, do Corpo de baile, 1965, p. 97).
            A palavra “neblina”, em diversas situações, tem um efeito conotativo quando é associada à personagem Diadorim. A neblina é aquilo que embaça a visão, que não deixa ver além. Ao relembrar a figura de Diadorim, Riobaldo a mantém como a neblina, pois, para Riobaldo, o sentimento amoroso que nutria pelo amigo ainda é confuso. “Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é minha neblina” (ROSA, 2006, p. 24)
            Finalizando esse capítulo, veja-se o fragmento do texto roseano:
ah, o meu Urucuia, as águas dele são claras certas. E ainda por ele entramos, subindo légua e meia, por isso pagamos uma gratificação. Rios bonitos são os que correm para o norte, e os que vêm do poente – em caminho para se encontrar com o sol. E descemos num pojo, num ponto sem praia, onde essas altas árvores – a caraíba-de-flor-rôxa, tão urucuiana. E o folha-larga, o aderno-preto, o pau-de-sangue; o pau-paraíba, sombroso. O Urucúia,  suas abas. E vi meus Gerais! Aquilo nem era mais mata, era até florestas! Montamos direto, no Olho-d’Água-das-Outras, andamos, e demos com a primeira vereda – dividindo as chapadas – : o fla-flo de vento agarrado nos buritis, franzido no gradeal  de duas folhas altas; e sassafrazal – como o da alfazema, um cheiro que refresca; e aguadas que molham sempre. Vento que vem de toda parte. Dando no meu corpo, aquele ar me falou em gritos de liberdade. Mas liberdade – aposto – ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém, não ensina: o beco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é uma cousa terrível? Lenga-lenga. Fomos, fomos...(ROSA, 2006, p. 306).

            Nesse fragmento é possível verificar grande parte dos elementos já citados e analisados no presente trabalho. Observa-se a pontuação sofisticada, o neologismo  o aforismo, o arcaísmo, as belezas naturais, a agramaticalidade, a justaposição das orações, a metáfora  e,  principalmente, a poesia.
            Prosseguindo no entendimento da estruturação da linguagem poética na obra Grande Sertão: Veredas, falar-se-á no último capítulo sobre a prosa que se reveste de poesia”. É prosa porque é linguagem. E é poesia porque é linguagem  encantada.





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