quarta-feira, 19 de julho de 2017

DESEJAR PROFUNDO

Durante o tempo que estive aqui, vivi muitas vidas. É certo que nem sempre foi bom, mas sobrevivi. E agora eu olho para trás e pra frente e penso que das emoções, muitas foram mornas, exangues. Algumas, entranto, foram tão intensas que desejei profundo senti--las sempre. E dos amores que tive, alguns se perderam ao longo, posto, eram menores. Contudo, algum me levou ora ao céu, ora ao inferno. Numa gradação de sentimentos que, por muito, achei, permaneceria aqui, talvez até que se extinguisse. Era necessário que se cumprisse o fim, ou o êxtase. Mas a vida não é democrática. O tempo, talvez. Mas a vida não, e ela não espera. A vida é injusta, cruel, desumana. E tira o melhor que temos no meio do ato. Não permite a felicidade até o fim. Não nos autoriza raspar o prato, lamber os dedos. Toma-nos o sapatinho antes da meia noite. E nem sempre há sol quando tentamos voltar para casa. Resta-nos o consolo por saber que o que sentimos de verdadeiro será para sempre. O amor, profundo, que sinto agora, eterniza-me. O que choro, o que sangra, é não estar aqui para senti-lo. Como um espectro, não poderei nunca mais me ver nos olhos dele. Nunca mais.

Lecia Freitas




          Foto de Al Mazid - https://www.facebook.com/al.mazid.96




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