quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

ASPECTOS BIOPSICOLÓGICOS DA EDUCAÇÃO INFANTIL --- 4

A Psicologia do Movimento

Esta área de conhecimento da psicologia estuda o desenvolvimento do ser humano em todos os seus aspectos físico-motor, intelectual, afetivo-emocional e social, desde o nascimento até a idade adulta, isto é, a idade em que todos esses aspectos atingem o seu mais complexo grau de maturidades e estabilidade.
Existem várias teorias do desenvolvimento humano em psicologia. Elas foram construídas a partir de observações, pesquisas em grupos de indivíduos em diferentes faixas etárias ou em diferentes culturas, estudos de casos clínicos, acompanhamento de indivíduo desde o nascimento até a idade adulta.  Dentre essas teorias, destaca-se a do psicólogo e biólogo suíço, Jean Piaget, pela sua produção contínua de pesquisas, pelo rigor científico de sua produção teórica e pelas implicações práticas de sua teoria, principalmente no campo da Educação.
O desenvolvimento humano refere-se ao desenvolvimento mental e ao crescimento orgânico. O desenvolvimento mental é uma construção contínua, que se caracteriza pelo aparecimento gradativo de estruturas mentais. Estas são formas de organização da atividade mental que se vão aperfeiçoando e solidificando até o momento em que todas elas, estando plenamente envolvidas, caracterizam um estado de equilíbrio superior quanto aos aspectos da inteligência, vida afetiva e relações sociais.

A PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM

Teorias da aprendizagem:
Existe um grande número de teorias da aprendizagem. Essas teorias poderiam ser genericamente reunidas em duas categorias:
As teorias do condicionamento e as teorias cognitivistas (teorias  base).
No primeiro grupo estão as teorias que definem a aprendizagem pelas suas consequências comportamentais e enfatizam as condições ambientais como forças propulsoras de aprendizagem.
Aprendizagem é a conexão entre estímulo e a resposta. Completada a aprendizagem, estímulo e resposta estão de tal modo unidos que o aparecimento do estímulo evoca a resposta (condicionamento).
No segundo grupo estão as teorias que definem a aprendizagem como um processo de relação do sujeito com o mundo externo e que tem consequências no plano da organização interna do conhecimento (organização cognitiva).

CONTROVÉRSIAS BÁSICAS ENTRE ESSAS CONCEPÇÕES

De maneira geral, poderíamos apontar três controvérsias.
A primeira refere-se à questão do que é aprendido e como. Para os teóricos do condicionamento aprendemos hábitos, isto é, aprendemos a associação entre um estímulo e uma resposta e aprendemos praticando; para os cognitivistas, aprendemos a relação entre ideias (conceitos) e aprendemos abstraindo de nossa experiência.
A segunda controvérsia refere-se à questão do que mantém o comportamento que foi aprendido. Para os teóricos do condicionamento, o comportamento é mantido pelo sequenciamento de respostas. Explicando melhor: uma resposta é, na realidade, um conjunto de respostas. Quando falamos no comportamento de abrir uma porta, é fácil perceber que ele é composto de diversas respostas intermediárias: pegar a chave na posição certa para que entre na fechadura, virar corretamente e abaixar então a maçaneta. São essas diversas respostas que, reforçadas (bem-sucedidas), preparam a etapa seguinte e mantêm a cadeia de respostas até que o objetivo do comportamento seja atingido. Para os cognitivistas, o que mantém um comportamento são os processos cerebrais centrais, tais como a atenção e a memória, que são integradores dos comportamentos.
A terceira controvérsia refere-se à maneira como solucionamos uma nova situação-problema (transferência da aprendizagem). Para os teóricos do condicionamento, evocamos hábitos passados apropriados para o novo problema e respondemos, quer de acordo com os elementos que o problema novo tem em comum com outros já aprendidos, quer de acordo com aspectos da nova situação, que são semelhantes à situação já encontrada. Por exemplo, quando a criança aprende a dar laço nos sapatos, saberá dar laço em presentes, no vestido ou na fita do cabelo. Os cognitivistas acreditam que, mesmo  no caso de haver toda experiência possível com as diversas partes do problema, como saber todas as etapas par dar um laço, isso não garante que a solução do problema seja alcançada.
Seremos capazes de solucionar um problema, se este for apresentado de uma forma, mas não de outra, mesmo que ambas as formas requeiram as mesmas experiências  passadas para serem solucionadas. De acordo com os cognitivistas, o método de apresentação do problema permite uma estrutura perceptual  que leva ao insight, isto é, à compreensão interna das relações essenciais do caso em questão. Por exemplo, quando montamos um quebra-cabeça e percebemos o lugar de uma peça sem termos feito tentativas anteriormente.

A TEORIA COGNITIVA DA APRENDIZAGEM

Desenvolvimento de alguns conceitos básicos dessa abordagem através da teoria de David Ausubel.

Cognição
É o processo através do qual o mundo de significados tem origem. À medida que o ser de situa no mundo, estabelece relações de significados, isto é, atribui significados à realidade em que se encontra.
Esses significados não são entidades estáticas, mas pontos de partida para a atribuição de outros significados. Tem origem, então, a estrutura cognitiva (os primeiros significados), constituindo-se nos pontos básicos de ancoragem dos quais derivam outros significados.
Por exemplo, quando precisamos ensinar à criança a noção de sociedade, podemos levá-la a dar uma volta no quarteirão e observar tudo o que lá existe. A criança atribuirá significados aos elementos dessa experiência e poderá, posteriormente, compreender a sociedade.
O cognitismo está, pois, preocupado com o processo de compreensão, transformação e utilização das informações no plano da cognição.

PONTOS DE ANCORAGEM

Os pontos de ancoragem são formados com a incorporação, à estrutura cognitiva, de elementos (informações ou ideias) relevantes para a aquisição de novos conhecimentos e com a organização destes, de forma a, progressivamente, generalizarem-se, formando conceitos. Por exemplo, crianças pequenas podem, inicialmente, ter contato com sementinhas, que, plantadas num canteiro, surgem como folhinhas; ter contato com animais, que geram novos animais; e ainda ter contato com as pedras e a areia da rua. Estes contatos podem ser explorados até que as crianças  tenham  condições cognitivas de perceber as diferenças entre os seres e, assim, adquirir as  noções de seres vivos – vegetais e animais – e seres inanimados. A partir da aquisição dessas noções básicas, as crianças estarão aptas a aprender outros conteúdos e a diferenciar e categorizar os diferentes seres. Podemos, então, dizer que as noções de seres vivos e não-vivos são pontos de ancoragem para outros conhecimentos.
O exemplo acima poderá dar a impressão de que falamos de pontos de ancoragem apenas na aprendizagem realizada por crianças. Não falamos de aprendizagem significativa e de pontos de ancoragem sempre que algum conteúdo novo deva ser aprendido. Assim, na disciplina de Física, com certeza seu professor trabalha inicialmente a noção de energia e/ou eletricidade, para desenvolver outros conteúdos desses conceitos.
E, indo um pouco mais além, podemos dizer que não estamos falando apenas da aprendizagem que se dá na escola. Pense em alguém que nunca tenha visto, nem ouvido falar do jogo de futebol, isto é, não tenha pontos de ancoragem para as informações que lhe chegam através da televisão na transmissão de uma partida. Com certeza, não entenderá nada ou, aos poucos, com base em informações que possua de outros jogos, começará a organizar informações recebidas, vindo mesmo a entender o que se passa.



UMA TEORIA DE ENSINO: BRUNER

A partir das concepções, como essa se Ausubel, sobre o processo de aprendizagem, alguns pesquisadores desenvolveram teorias sobre o ensino, procurando discutir e sistematizar o processo de organização das condições para a aprendizagem. Entre esses teóricos, ressaltaremos a contribuição de Jerome Bruner. Esse estudioso concebeu o processo de aprendizagem como “captar as relações entre os fatos”, adquirindo novas informações, transformando-as e transferindo-as para as novas situações. Partindo daí, ele formulou uma teoria de ensino.
O ensino, para Burner, envolve a organização da matéria de maneira eficiente e significativa para o aprendiz. Assim, o professor deve se preocupar não só com a extensão da matéria, mas, principalmente, com sua estrutura.

A ESTRUTURA DA MATÉRIA

A aprendizagem, que deve ser sempre capaz de nos levar adiante, está na dependência de como se domina a estrutura da matéria estudada, isto é, a natureza geral do fenômeno; as ideias mais gerais, elementares e essenciais da matéria. Para se garantir este “ir adiante”, é necessário ainda o desenvolvimento de uma atitude de investigação.
Para se dar conta do primeiro aspecto (estrutura  da matéria), Bruner propõe que os especialistas na disciplinas auxiliem a estruturar o conteúdo de ensino a partir dos conceitos mais gerais e essenciais e, a partir daí, desenvolvam-no como uma espiral sempre dos conceitos mais gerais para os particulares, aumentando gradativamente a complexidade das informações. Por exemplo, em Física é necessário começarmos pela noção de energia, em Psicologia pela noção da vida psíquica e em História pelas noções de Homem, Natureza e Cultura.
Quanto à atitude de investigação, Burner sugere que se utilize o método da descoberta como método básico do trabalho educacional. O aprendiz tem plenas condições de percorrer o caminho da descoberta científica, investigando, fazendo perguntas, experimentando e descobrindo.
O ensino, para Burner, deve estar voltado para a compreensão das relações entre os fatos, e entre as ideias, única forma de se garantir a transferencia do conteúdo aprendido para novas situações. Esse princípio geral norteia a proposta de Burner até no que diz respeito ao trabalho com o erro do aprendiz. O erro deve ser instrutivo, diz Burner.  O professor deverá  reconstituir com o aprendiz o caminho de seu raciocínio, para encontrar o momento do erro e, a partir daí, reconduzi-lo ao raciocínio correto. Burner ainda postula que “ qualquer assunto pode ser ensinado com eficiência, de alguma forma    intelectualmente honesta, a qualquer criança, em qualquer estágio de desenvolvimento”. Para que isso seja possível, é necessário que o professor apresente a matéria à criança e termos de visualização que ela tem das coisas. Isto é, a criança poderá aprender qualquer coisa, se a linguagem do professor lhe for acessível e se seus conhecimentos anteriores lhe possibilitarem a compreensão do novo conteúdo. O trabalho do professor é um verdadeiro trabalho de tradução: da linguagem da ciência para a linguagem criança. Para isso, Burner propõe que o professor se utilize da teoria de Piaget, onde as possibilidades e limites da criança em cada fase do desenvolvimento estão claramente definidos.
Burner e Piaget podem auxiliar muito o professor na organização, mas será sempre necessário que o professor conheça a realidade de vida de seus alunos, sua classe social, suas experiências de vida, suas dificuldades, a realidade de sua família, etc. para que o programa possa ter algum significado e importância para ele; isto é, não basta conhecer teoricamente o educando, é preciso conhecê-lo concretamente.






Um comentário:

  1. Excelente texto, linguagem clara, objetiva e muito relevante. O texto traz informações corretas à respeito da aprendizagem significativa e chama a atenção para elementos essenciais à prática pedagógica de educadores que desejam alcança-la. Gostei bastante.

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