5.4 A
Poética em Grande Sertão : Veredas
Só nos olhos das pessoas é que eu procurava
o macio interno delas; só no onde os olhos.
João Guimarães Rosa
Na
obra Grande Sertão: Veredas, o autor
utiliza diversos elementos que se convertem em linguagem poética devido à sua
criatividade e senso estético. Ele ultrapassa a própria língua na sua função
comunicativa e faz dela a matéria prima para a sua mais perfeita obra de arte.
Um dos recursos utilizados pelo autor, e que confere um atributo poético à sua
obra, são as descrições das belezas
naturais da região. Além das imagens, a linguagem utilizada remete aos sons
produzidos pelos elementos da natureza, o que os torna mais expressivos e
belos.
Riobaldo,
o narrador, sempre associa a figura de Diadorim e o intenso sentimento que tem
por ele, às coisas da natureza. Foi
Diadorim que o “ensinou a gostar dessas coisas todas” (ROSA, 2006, p. 26).
Guimarães Rosa entrelaça as emoções dos protagonistas com essas belezas por todo sempre, evidenciando o amor dos dois:
a garôa rebrilhante
da dos-Confins, madrugada quando o céu embranquece – neblim que chamam de
xererém. Quem me ensinou a apreciar essas as belezas sem dono foi Diadorim... A
da Raizama, onde até os pássaros calculam
o giro da lua – se diz – e cangussú monstra pisa em volta.(ROSA, 2006, p.
26). Ia dechover mais em
mais. Tardinha que enche as árvores de cigarras – então, não
chove. Assovios que fechavam o dia: o papa-banana, o azulejo, a
garricha-do-brejo, o suirirí, o sabiá-ponga, o grunhatá-do-coqueiro... Eu
estava todo o tempo quase com Diadorim (ROSA, 2006, p. 28). Saí, vim, destes
meus Gerais: voltei com Diadorim. Não voltei? Travessia... Diadorim, os rios
verdes. A lua, o luar: vejo esses vaqueiros que viajam a boiada mediante o
madrugar, com lua no céu, dia após dia. Pergunto coisas ao buriti; e o que ele
responde é: a coragem é minha. Buriti quer todo azul, e não se aparta de sua
água – carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente
aprende. (ROSA, 2006, p.309).
A linguagem literária distancia-se da linguagem comum para obter efeitos
expressivos mais intensos e surpreendentes. Segundo Jean Cohen “O poeta é poeta
não pelo que pensou ou sentiu, mas pelo que disse. Ele é criador não de ideias,
mas de palavras. Todo seu gênio reside na invenção verbal” (1966, p. 38). As
figuras de linguagem são recursos utilizados pelos autores para conseguir esses
efeitos expressivos. As metáforas, em sentido estrito, é a substituição do
significado de uma palavra por outra, a partir de uma semelhança. E podem ser
identificadas nesses trechos de Grande Sertão: Veredas:
numa baixada toda avistada, felizinha de aprazível, com uma
lagoa muito correta, rodeada de buritizal dos mais altos: buriti – verde que
afina e reveste, belimbeleza... numa alegria, feito nuvem de abelhas em flor de
araçá. (ROSA, 2006, p. 45). Buriti, minha palmeira, lá na vereda de lá: casinha da banda esquerda, olhos de onda do
mar... (ROSA, 2006, p. 52). O Amor? Pássaro que põe ovos de ferro.../ Diadorim
era aquela estreita pessoa... (ROSA, 2006, p. 61). Em Diadorim, penso também –
mas Diadorim é a minha neblina (ROSA, 2006, p. 24). Abracei Diadorim com as
asas de todos os pássaros (ROSA, 2006, p. 41). Diadorim era mulher como o sol
não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei o meu desespero. (ROSA, 2006,
p.599).
Para Cohen (1966, p.94), a linguagem poética revela, graças à
agramaticalidade, um desvio¹¹ linguístico ao tomar-se
a palavra em seu
sentido literal. Para reduzir-se esse desvio basta mudar o sentido de uma
dessas palavras. Essa mudança se faz necessária uma vez que o sentido literal é
impertinente, ao passo que o segundo
sentido, promovido pela metáfora, lhe
devolve a pertinência. A impertinência é uma infração ao código da fala,
situa-se no plano sintagmático; a metáfora é uma infração ao código da língua,
situa-se no plano paradigmático. A supremacia da fala sobre a língua
comprova-se, uma vez que esta aceita
transformar-se para dar um sentido àquela. Esse autor afirma que “a
estratégia poética tem, por único objetivo a mudança de sentido e que o poeta
atua sobre a mensagem para modificar a língua” (COHEN, 1966, p. 94-95)
Outras
figuras de linguagem, como aliteração e assonância presentes no texto,
imprimem a musicalidade que é um dos atributos necessários à linguagem poética. Impressiona a capacidade criativa de
Guimarães Rosa no trato com as palavras, no sentido de produzir a sonoridade.
Quando ele imita a voz dos animais, principalmente a dos passarinhos e dos
grilos, se se apurar o ouvido é possível perceber, tamanha a força da imagem, por meio da palavra, que ele propõe.
Outros exemplos comprovam a exacerbação:
demorou dentro dum momento / me
disse nada menos nada, de deu em demo. / Floriano, foi, foi, foi... / Zé Bebelo vinha vindo. Vinham
por nós.../ vara verde ver... / dele
havia de vir o pior... rente repente...?
coração bruto batente debaixo de tudo... / deu de dar diante , um desvôo... / a vida é uma vago variado... /
bobeia disso, a basba do basbaque... / ouvi um uivo doido de Diadorim... / mas
os passávamos feito flecha, feito faca, feito fogo... / As arvorezinhas
ruim-ínhas de minhas... / o cavalão lão lão, pôs pernas para adiante... /
Desmenti o ódio de Diadorim forjava as formas do falso... / Diadorim tomou
conta de mim. / ...feito flecha, feito faca, feito fogo
(ROSA, 2006).
Veja-se
o que declara o crítico Eduardo Faria Coutinho, citado por Fenske, a respeito
dessa técnica do autor, Guimarães Rosa:
a
aliteração é um dos recursos poéticos mais importantes empregados por Guimarães
Rosa. [...] Ela se estende desde a simples reduplicação de um fonema ou uma
sílaba até a repetição de vocábulos ou expressões inteiros (qual e qual) e
serve geralmente ao propósito de reforçar o conteúdo expressional através da
criação de uma atmosfera sugestiva. (COUTINHO, apud FENSKE
2011).
Em
seus estudos Cohen nos diz que a aliteração consegue um efeito de homofonia,
como a rima, a partir das contingências da língua. Segundo ele, a aliteração
realiza de uma palavra para outra o que a rima efetua de um verso para o outro.
A função da homofonia só aparece se relacionarmos o verso com a prosa. Segundo
esse autor “no discurso prosaico, toda a rima , toda aliteração é inoportuna e
o escritor esforça-se por evitá-las enquanto o verso procura-as e até faz da
rima uma regra constitutiva.” (COHEN, 1966, p. 73). Seria impossível enumerar
todas as rimas existentes na obra, no entanto, decidiu-se por destacar esses
trechos em que acontece a rima com o “im”
só de mim era que Diadorim às vezes
parecia ter um espevito de desconfiança; de mim, que era o amigo! Mas, essa
ocasião, ele estava ali, mais vindo, a meia-mão de mim. (ROSA, 2006, p. 29) Diadorim
queria o fim. (ROSA, 2006, p.30). Dizendo, Diadorim se arredou de mim (ROSA,
2006, p. 469). Diadorim me olhava. Diadorim esperou, sempre com serenidade. O amor
dele por mim era de todo quilate: ele não tartameava mais, de ciúme nem de
medo. Disse assim. (ROSA, 2006, p. 482).
Sobre o ritmo, observa-se um
movimento, no caso espiralado, como os
próprios volteios da narrativa, na
linguagem labiríntica, e no vento que vai e volta, o próprio “redemunho” do
vento:
do vento. Do vento que vinha, rodopiando. Redemoinho: o senhor sabe – a
briga dos ventos. O quando um esbarra com outro, e se enrolam, o dôido espetáculo.
A poeira subia, a dar que dava escuro, no alto, o ponto às voltas,folharada, e
ramarêdo quebrado, no estalar de pios assovios, se torcendo
turvo,esgarabulhando. Senti meu cavalo como meu corpo. Aquilo passou, embora,
oró-ró. A gente dava graças a Deus.
(ROSA, 2006, p. 187). Diadorim foi nele... Negaceou, com uma quebra de
corpo, gambetou... E eles sanharam e baralharam, terçaram. De supetão... e
só...E eu estando vendo! Trecheio, aquilo rodou, encarniçados, roldão de tal
dobravam para fora e para dentro, com braços e pernas rodejando, como quem
corre, nas entortações...O diabo na rua,
no meio do redemunho... (ROSA, 2006, p. 595).
Entre as onomatopeias uma se destaca pelo caráter poético e por sempre
vir acompanhada de uma imagem que
remete-se a lugares calmos e bonitos: o buritizal com folha que “lequelequêia” (ROSA, 2006, p. 47)
ao vento. Outra figura, inusitada, é “o barulho dos tiros que desfechavam com
metralhadora: arrejárrajava” (ROSA, 2006, p.356).
O
estranhamento do leitor ante o inusitado dos termos pode ser amenizado diante
da argumentação de Jean Cohen, em seu livro Estrutura
da Linguagem Poética. Através da sua
teoria pode-se ter uma visão do processo de construção da linguagem poética de Guimarães Rosa em Grande Sertão : Veredas:
o poema não é a expressão fiel de um universo anormal, mas a
expressão anormal de um universo comum. A poesia não é a “bela linguagem”, mas
uma linguagem que o poeta teve de inventar para dizer aquilo que não teria dito
de outra forma. (COHEN, 1974, p. 97-132).
Para
Guimarães Rosa, citado por Fenske, “o idioma
é a única porta para o infinito mas, infelizmente está oculto sob montanhas de
cinzas."(2011). Ele consegue dizer
o que já existe de uma forma singular:
como é que eu posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si do
fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado... Sertão é isto: o
senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados.
Sertão é quando menos se espera; digo. (ROSA, 2006, p. 202-286).
Outra figura de linguagem muito utilizada pelo autor
é o hipérbato onde Guimarães Rosa
“quebra” a sequência lógica das frases, no entanto, percebe-se a
dramaticidade em fragmentos como esse que descreve a morte de Diadorim: “Mesmo como jazendo assim, nesse pó de palidez,
feito a coisa e máscara, sem gota nenhuma. Os olhos
dele ficados para a
gente ver” (ROSA, 2006, p. 598). Ou em outro exemplo: “caminhamos prazo dentro do riacho, depois escolhemos
para pisar pedras, de nosso pisado com ramos desmanchamos, e o mais do caminho
que se seguiu por muitos rodeios. De tudo não falo.” (ROSA, 2006, p. 216).
Em
seus estudos sobre a estrutura poética, Cohen afirma que “as palavras são
simples substitutos das coisas, existem para transmitir uma informação sobre as
coisas que as próprias coisas nos forneceriam mais adequadamente se pudéssemos percebê-las”. (COHEN, 1974, 31-32). Essa afirmativa
reporta-se à capacidade criativa de
Guimarães Rosa: “De qualquer pano de mato, de de-entre quase cada encostar de
duas folhas, saíam em giro as todas cores de borboletas.” (ROSA, 2006, p.28).
Além
disso, essa afirmativa de Cohen tem uma estreita correlação com as palavras de
Guimarães Rosa ao jornalista Lorenz,
citadas por Fenske (2011), “e
assim nasce então meu idioma que, quero deixar bem claro, está fundido com elementos
que não são de minha propriedade particular, que são acessíveis igualmente para
todos os outros” (ROSA, 1965) e que é demonstrada em fragmentos retirados da
obra Grande Sertão: Veredas:
quero
bem a esses maios, o sol bom, o frio de saúde, as flores no campo, os finos
ventos maiozinhos. A frente da fazenda,
num tombado, respeitava para o espigão, para o céu. Entre os currais e o céu,
tinha só um gramado limpo e uma restinga de cerrado, de onde descem borboletas
brancas, que passam
entre as réguas da cerca... Ali, a gente não vê o virar das horas. E a
fôgo-apagou sempre cantava, sempre. Para mim, até hoje, o canto da fôgo-apagou
tem um cheiro de folhas de assa-peixe.[...] Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho
colominhando por entre
serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe (ROSA,
2006 p. 189-188).
Embora
haja desvios linguísticos na obra Grande Sertão: Veredas, o que favorece a linguagem poética, Guimarães
Rosa como estudioso e amante da língua, respeita o código gramatical. Assim não
fosse, não seria possível o entendimento da mensagem. Para Cohen, “a gramática
é o pilar que sustenta a significação. A inversão , no entanto, é um traço
especifico da poesia que constitui um desvio sistemático da linguagem
habitual.” (COHEN, 1966, p. 150) Louis
Aragon, citado por Cohen, em seus estudos, concorda com essa asseveração e afirma
que “só há poesia quando há meditação sobre a linguagem e reinvenção desta linguagem a cada passo.”
(ARAGON, 1942, p.14). Em
Grande Sertão : Veredas faz-se necessário meditar sobre
o dito:
que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva
tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte
raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa pessoa passe durante
o tempo governando a idéia e o sentir da gente. (ROSA, 2006, p. 237).
Finalmente,
Cohen argumenta, em seu livro Estrutura
da Linguagem Poética (1974), que “consideramos a linguagem poética como um
fato de estilo tomado no seu sentido geral”.
O autor diz ainda que o poeta não fala como todo mundo . Sua linguagem é
anormal, e tal anormalidade confere-lhe um estilo:
a frase poética confere aos termos uma função que o sentido
é incapaz de exercer. [...] o código da linguagem normal apóia-se na
experiência externa, enquanto o código da linguagem poética na experiência
interna. (COHEN, 1974, p. 170).
Buscou-se
em Grande Sertão :
Veredas, entre tantos dizeres significativos, algo assim como:
a vida inventa! A gente principia as
coisas, no não saber porque, e desde aí perde o poder de continuação – porque a
vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada. [...] Mas, pensar na pessoa que se ama, é como querer ficar à beira d'água,
esperando que o riacho, alguma hora, pousoso, esbarre de correr. (ROSA, 2006, pp. 461-361).
Na obra em estudo, os elementos da narrativa se apresentam de uma maneira
que se afasta da forma tradicional. Sendo assim, considera-se relevante seu estudo
para a compreensão da estruturação da obra e também por entender-se que esses
elementos contribuem para o aspecto poético que se evidencia em Grande
Sertão : Veredas.
¹¹ Cohen (1966, p.161) ainda considera
que “[...] a diferença entre prosa e poesia é de natureza linguística, vale
dizer, formal. Não se acha nem na substância ideológica, mas no tipo particular
de relações que o poema institui entre o significante e o significado
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